Vem aí o Cancioneiro Jobim  
Coleção de seis livros com partituras de músicas de Tom  
  Luiz Roberto Oliveira
15.agosto.2000

 
 

O Cancioneiro Jobim será oferecido ao público como uma coleção de seis livros de partituras, que pretende abranger toda a obra de Tom Jobim, por volta de 300 títulos. As partituras são para piano, e procurarão ser fiéis à maneira como o compositor tocava as suas músicas. A coleção tem textos em português e inglês, e contará com fotos e ilustrações. O primeiro volume deverá chegar às lojas em dezembro deste ano.

Quando cheguei à casa de Paulo Jobim, filho de Tom, na tarde de 1 de agosto deste ano, a reunião já havia começado. Sobre a mesa no centro da sala, um monte de CDs e Long-Plays, a maioria com músicas de Tom. Partituras espalhadas por vários lugares. Uma pilha de folhas com dados minuciosos sobre as músicas do nosso maestro.

Paulinho conversava com duas pessoas encarregadas de passar as partituras para o computador. Uma moça muito simpática cuidava somente da estética da partitura, sem se preocupar com a exatidão das notas, o que era verificado em etapa anterior. O trabalho era complicado, e questões sobre pequenos detalhes eram discutidas. Qual a maneira correta de escrever as cifras dos acordes? Como criar uma uniformidade de notação musical em todo o trabalho? Muitos músicos escrevem as cifras pelo padrão norte-americano, e outros já praticam uma linguagem mais abrasileirada. Como escrever os acordes de sétima maior? E as cifras para a quinta aumentada?

 
 

O Finale é um dos melhores softwares para elaboração de partituras. E' um programa vasto, com muitos recursos, e de difícil aprendizado. Mas as partituras perfeitas do Finale o tornam o preferido de compositores e músicos que precisam um output gráfico de alta qualidade e precisão.

 
As partituras para piano não poderiam resultar em peças exageradamente técnicas, ponto ao qual muitas vezes os recursos do Finale podem conduzir o músico mais incauto. Deveriam ficar pianísticas, retratando o mais possível a maneira especial como o compositor tocava.
 
  Faço alguns comentários sobre o calhamaço com a lista das músicas de Tom: "Esta música aqui não é do Tom. E' do Inaldo Villarin, e foi gravada por João Gilberto: O meu coração apaixonado/de sofrer vive abafado/sem saber por quê... Esta outra aqui está com o nome trocado. E o 'Gracioso', que está na lista, deve ser mesmo o 'Choro Gracioso' de Garoto, e não de Tom." Paulinho me passa um lápis e pede que eu vá anotando tudo numa página do calhamaço.  
 
 

Algumas tentativas de catalogar e organizar a obra de Tom já foram feitas antes. O Song Book Tom Jobim, em três volumes, publicado pela Editora Lumiar, está nas lojas há vários anos, e a atual segunda edição foi revista pelo próprio compositor. As partituras contêm basicamente melodias, cifras e letras.

A museóloga Vera Alencar fez um extenso trabalho de organização dos arquivos de Tom Jobim, incluindo partituras, textos, e tudo mais. Sobre o trabalho de Vera, Tom costumava brincar: "Estou sendo empalhado vivo".

Para a tarefa de conseguir um levantamento completo da obra de Tom, a família Jobim acudiu em peso. Ana Jobim, viuva de Tom, administra os direitos autorais, e cuida da área comercial do empreendimento. Dora e Daniel, filhos de Paulo, colaboram, ela cuidando do banco de dados das músicas, e ele ajudando o pai nas melodias e harmonias. Tereza, primeira mulher de Tom, contribuiu com um sem número de anotações, fotos e partituras originais.

Vários manuscritos com esboços ou registros definitivos saíram das gavetas. Algumas músicas, praticamente desconhecidas, foram ressuscitadas. Dentre os resultados deste grande esforço conjunto, apareceram mais três músicas que Tom fez em parceria com Newton Mendonça. Alguém na sala me passa um papel: "Olha aí, Luiz, este aqui é o original de 'Tristeza'. Lá estava, escrita a lápis, na caligrafia de Tom. Tive vontade de sentar ao piano e ver direito o que era aquilo, mas naquele momento estavam chegando mais algumas pessoas, e a sala ficou um pouco confusa. Até agora, ainda não ouvi 'Tristeza'.

 
 

O Jorge Mello, uma pessoa que conheci somente via e-mail, está preparando um livro sobre Newton Mendonça. Depois de muita pesquisa, e de, finalmente, conseguir colocar uma ordem nas composições de Newton, me mandou a partitura de outra música em parceria com Tom Jobim: "Brigas", recuperada depois de tantos anos. E' um manuscrito de Tom, com anotações feitas posteriormente por outra caligrafia, em outra cor. Algumas correções nos acordes, e a anotação ao pé da página: "Gravação original (de onde foi tirada esta partitura) 78 rpm Mocambo 15.213A - Marisa Barroso, 1958". Essa você pode tocar: veja a partitura.

Experimentei "Brigas" no violão, e acho que tem mais valor histórico do que musical. A letra também não é grande coisa. Mas é sempre estimulante descobrir antigas e perdidas criações da dupla que fez "Desafinado" e "Samba de uma nota só".

E aconteceu que Tom tem duas músicas com o mesmo nome. "Sem você", lindíssima obra-prima com letra de Vinicius, é também o título de outra parceria com Newton Mendonça.

 
 

Paulinho apresentou os recém-chegados: eram pianistas, um deles professor de uma faculdade de música do Rio de Janeiro, e também iriam participar do afã de escrever partituras. Paulinho lhes mostrou a gravação de um arranjo para orquestra de Bangzália, e pediu uma redução para piano, que talvez, pela complexidade da orquestração original, precisasse ter uma ou duas pautas além das duas "regulamentares".

Uma daquelas pessoas que já estavam quando eu cheguei, e que digitava as músicas no computador, quiz mostrar ao Paulinho a partitura de "Pois é", de Tom em parceria com Chico Buarque. O professor da faculdade foi convidado a sentar ao piano para tocar a peça. Paulinho comentou com o "finaleiro" (digitador de partituras) alguns detalhes sobre inversões de acordes.

Duas moças no sofá conversavam agitadamente com Eliane, mulher de Paulo, sobre as artes gráficas da edição do Cancioneiro. E garantiam que tudo seria feito a tempo.

 
 

Paulinho pedia pressa a todos. Sentou-se no chão com os pianistas, e abriu a orquestração de "Bangzália". Uma xícara de café, colocada no tapete, ameaçava virar a qualquer momento sobre a partitura - tratava-se, afinal, de um Tom Jobim legítimo. Mais interessado em observar o movimento geral na sala do que os pormenores do arranjo complicado, mas com um olho na xícara, e pronto a pular para evitar a catástrofe iminente, acabei pegando ao acaso uma folha de papel de música de uma das pilhas em cima da mesa: "ô Paulinho, me deixa fazer uma xerox desta aqui para o Clube do Tom!" - ali estava, o original anotado na primeira página, com a inconfundível (e desajeitada) caligrafia do maestro: "Estrada Branca - música: Tom Jobim; letra: Vinicius de Moraes".

Paulinho disse que já tinha uma xerox, que me daria. Mas os pianistas voltaram ao ataque, e queriam ir para a sala do computador, para mostrar ao Paulinho não sei bem o quê. Subi a escada atrás deles, mas enquanto botavam as geringonças para funcionar, lembrei que já estava atrasado e precisava ir. Paulinho, você está me devendo a xerox de Estrada Branca.

 
  Paulo Jobim é sem dúvida quem melhor conhece a obra do pai, nos mínimos detalhes. Durante muitos anos tocou violão na banda semi-familiar criada por Tom Jobim. Fez arranjos para discos e trilhas sonoras do pai. Conhece tudo, nota por nota, acorde por acorde.  
  O Cancioneiro Jobim vai ser uma coleção de uns seis livros com partituras de músicas de Tom Jobim, letras, texto em português e inglês, fotos e ilustrações. Já estive com a prova do primeiro livro na mão: é uma beleza - e deve chegar às lojas em dezembro deste ano.  
  Veja também nota sobre o livro  


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