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Paulo Bellinati

entrevistado por Luiz Roberto Oliveira


Setembro de 96.
Fim de tarde, um bar vazio e silencioso no subsolo de um restaurante, as cadeiras viradas em cima das mesas.
Num intervalo do ensaio de um show que iria fazer à noite, Paulo Bellinati me diz que gostaria de começar a entrevista lendo um texto, ainda inacabado, que havia começado a escrever especialmente para o Clube do Tom.
Aliás, minha experiencia com o Clube do Tom tem me mostrado que os músicos, em geral, sentem-se pouco à vontade em frente a um papel sem pautas musicais.

Paulo Bellinati: (puxa um papel do bolso e lê) Domingo, 18 de setembro de 94, Carlos Barbosa Lima e eu fomos almoçar no Plataforma com a família Jobim. Estavam o Tom, a Ana, o neto Daniel e a Maria Luiza, filhinha do Tom. Foi a última vez que estive com o Maestro. Lembro que ele estava fascinado com as conversas sobre macacos-aranha, os "spider monkeys".
Luiz Roberto Oliveira: E ele falava spider monkey?
P. É.
L. E essa conversa como é que apareceu? Ele...
P. Ele começa a conversar. Ele olha prá você: "Paulo: aquele macaco com o braço comprido..." E já sai solando nos assuntos mais fascinantes.

L. Você o conheceu nessa ocasião ?
P. Não, não, já conhecia, já tinha encontrado com ele algumas outras vezes, quando preparou aquele texto para a contracapa do meu disco. Mas esse domingo foi a última vez.

Ele estava muito falador, e falou muito desse negócio do macaco-aranha, o macaco de braço comprido, o spider monkey. Ele falou que tem atrás da casa dele.
L. É um bicho brasileiro...
P. É. É um macaco brasileiro, tem na floresta da Tijuca, um macaco preto.
L. E ele viu ?
P. Viu. Ele disse que viu. "De vez em quando aparece um bicho daqueles lá. É um macaco preto que tem os braços enormes. Então ele está pendurado e você não sabe se é o rabo, o braço, o rabo parece um braço" - ele falava "spider monkey".
Filhote de spider monkey
E ele aí falou muito sobre a viagem dele para Portugal, que ele ganhou uma comenda lá, a chave do não sei o que, em Portugal. E foi também pro oriente médio, de onde ele tinha acabado de chegar com a Ana. Ele contou bastante dessa viagem, dos camelos, das pirâmides, dos caras com aquelas...
L. E ele gostou desse negócio todo ?
P. Ele gostou, ele achou legal. Esse negócio de ir prá esses lugares, de receber esta comenda lá em Portugal. E ele estava falando muito sobre o livro "Visões do Paraiso". Estava muito animado com o livro.
L. Que ele fez com a Ana.

P. Ele estava falador nesse dia, eu lembro, e ele é muito carinhoso.
L. Ele se interessa pelas pessoas.
P. É, ele pega em você assim, pega no seu braço e fala: "Sabe Paulo, aqueles caras no deserto com aqueles... tudo agasalhado, um calor e os caras cheios de malha".
Daí, que mais que eu escrevi aqui ? (Paulo volta a olhar o papel) A gente falou muito pouco sobre música...quase nada...
L. Como sempre, com ele.
P. O Carlos Barbosa Lima de vez em quando falava: "O Paulo é um grande compositor e tal, e está com umas músicas muito fantásticas", e aí o Tom mudava logo de assunto.
L. Voltava pros macacos...
P. Acho que ele não gosta muito de falar de música. Já mudava o assunto ràpidamente - mas, tudo o que ele fala, assim, todas as coisas que ele conta, qualquer história, é muito fascinante.

L. Paulo, foi nesse dia que ele assinou a contracapa do seu disco ?
P. Não, isso foi um ano antes, em 93, quando o disco ia sair. A gente começou com esse negócio da contracapa no começo de 93. Essa assinatura foi em junho ou julho de 93.
L. Quer dizer que esse almoço com o Carlos Barbosa Lima foi a ultima vez que você viu o Tom ?
P. Foi a última vez. Foi um almoço longo. Ele pagou a conta. Aliás eu não sei se ele pagava lá no Plataforma, eu acho que ele pendurava tudo...

L. Mas e o disco, a contracapa, ele concordou em fazer ?
P. A contracapa foi um baile ! Foi e voltou várias vezes. Na verdade, ele não queria escrever. Ele estava ocupadíssimo com outras coisas, com a viagem a Portugal e ainda eu mandei o disco prá ele - e mandei coisas prá Portugal, e fax prá Portugal, ele deve ter achado isso uma chatice.
L. E já era hora de sair o disco ?
P. Só faltava o texto dele, a contracapa.

L. Qual era o título desse disco?
P. Serenata.
L. Neste disco tem dois arranjos seus, para violão solo, de músicas do Tom.
P. A valsa "Luiza" e o choro "Garoto".
L. E nessa época quem te aproximou dele, foi o Serginho Saraceni?
P. O Serginho ficou falando com ele muito, e você também...
L. Eu tentei, mas eu acho que o Sergio foi mais eficaz nesse negócio.
P. Aí o Tom falava assim: "Mas esse cara é bom mesmo ?" perguntava pro Serginho. "Esse tal de Bellinati..." Porque eu já tinha dado os meus discos prá ele, mas o Tom acho que nunca escutou. Acho que ele não tinha o menor tempo de escutar o CD de ninguém... É uma pena. Eu acho que ele ia gostar daqueles arranjos que eu fiz. Mas a contracapa acabou acontecendo. Ficou um texto simpático sobre o disco Serenata. Ele assinou como se fosse um presente.

L. Por que você quiz que ele fizesse a contracapa ?
P. Porque o Tom era uma figura central entre o (maestro e compositor) Radamés Gnattali, o (violonista e compositor) Garoto, e no meio do meu trabalho o Tom é o ponto de ligação de tudo. Amicíssimo do Radamés, é o nosso elo com a música brasileira, não do passado, mas da geração anterior.
Ele nos deu a música brasileira de qualidade. Era amigo do Radamés e conheceu o Villa Lobos. Ele é o Maestro de ligação mesmo. É o ponto de ligação. Eu sinto o Tom assim.

L. E esses arranjos das duas músicas são mais Tom ou mais Paulo Bellinati ?
P. Eu acho que a Luiza é Tom total. O arranjo é muito simples, eu tentei colocar aquelas harmonias, aquela simplicidade do Tom. Fazer soar aqueles acordes do jeito que ele inventou, claro, adaptando para o violão.
L. Mas no Garoto você acrescentou uma espécie de parte central, uma parte intermediária...
P. Eu fiz um chorus de improviso, mas na introdução, exposição do tema, parte A e parte B, é totalmente Tom. Harmonias originais, melodias, enfim, não tem nenhuma invenção. Tem um chorus. Uma repetição da introdução uma oitava acima e depois um improviso sobre a primeira parte, depois volta o tema novamente. É muito Tom aquele arranjo. Eu acho que em termos de violão, é raro de ver um violão tão Tom Jobim quanto o que eu fiz.

L. E você, nas tuas músicas, ele te influencia ? Você sente alguma presença dele ?
P. Eu acho que não só o Tom. O Villa Lobos também está sondando a gente sempre que a gente compõe, a gente tem que até tomar um pouco de cuidado, na hora que está escrevendo música. Você até me falou disso uma vez...
L. Falei, que você ia ser visitado por essas entidades, quando você estivesse compondo coisas brasileiras.
P. Eu acho que a gente é visitado, a gente é influenciado sim, pelo Tom, pelo Villa Lobos, pelas coisas que são boas, que a gente ama, brasileiras, totalmente. É difícil fazer uma coisa original, não é ? Sem copiá-los, é muito difícil... Eles ensinaram muito, mas também grande parte das coisas que a gente gosta já foram escritas por estes maestros, o Villa, o Tom, o Radamés.

Súbito, a tranquilidade que reinava no bar foi quebrada por uma algazarra - sons estranhos e guturais, passos abafados e descompassados, cadeiras sendo derrubadas das mesas. Três spider monkeys tinham acabado de entrar pela porta lateral. Ignorando nossa presença, moviam-se excitados, pulando sobre as mesas, curiosos e inquietos. Quando um deles começou a bater nas teclas do piano, Paulo e eu decidimos encerrar a entrevista e fomos embora.

No dia seguinte, relembrando pelo telefone os acontecimentos da tarde naquele bar do subsolo, não nos foi difícil escolher os nomes para dar aos visitantes inesperados: Villa, Radamés e Tom.

Paulo Bellinati, violonista e compositor,
tem discos lançados nos Estados Unidos e na Europa.

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