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Sergio Lima: O Chico (Buarque) costuma dizer que o Tom era o melhor letrista dele mesmo. Edu Lobo: Grande letrista dele mesmo. SL: Impressionante, desde essa época do "Chega de saudade" ele já tinha feito "Outra vez", que é uma letra dele e é lindíssima, anterior a "Chega de Saudade". EL: Ele fez músicas ótimas. Luiz Roberto: E ele fez "As praias desertas" muito cedo, em 1958. Com esse negócio do Clube do Tom, eu comecei a saber cada coisa do Tom que eu nunca pensei que ia saber. EL: É bem antiga. Essa série de canções toda ele fez com vinte e poucos anos de idade. As canções, aquelas todas, "Derradeira Primavera" aquelas fantásticas... LR: Canções de câmera, onde será que ele foi buscar isso... EL: Ele tinha paixão pelo Villa-Lobos e... LR: Ele gostava do Villa, gostava de Chopin. EL: Gostava, mas ele tinha paixão pelo Villa-Lobos. Acho que ele pegou todo aquele espírito do Villa. Tá muito presente na musica dele. Demais! SL: E mesmo no fim da vida, até algumas atitudes físicas dele eram muito parecidas com o Villa. Aquele negócio de fumar charuto, ele se inspirava muito no Villa. EL: Eu tive uma conversa com a Helena (Jobim, irmã de Tom) outro dia, e ela falou exatamente isso que você está dizendo, ele foi ficando... cada vez ele queria mais parecer com o Villa, o negócio do charuto, sei lá. Chapéu não sei se o Villa usava.
SL: Cabelo grande.
O som do Brasil
EL: Foi ficando assim com cara de... que ele tinha realmente uma adoração e ele pegou a sonoridade do Villa, assim aquele espírito, aquela coisa que o Villa tem genial mesmo que você ouve e fala: Brasil taí. Brasil, isso ninguém faz... Isso não é Stravinsky, não é Debussy, não é Ravel, e tá tudo aí... Tem Debussy, tem Ravel, tem Stravinsky, tem tudo, mas é o Brasil e é o Villa-Lobos, Brasil puro, é uma coisa que se perdeu no Brasil, as pessoas perderam esse encanto pelo som do Brasil. LR: Com poucas exceções, que se mantem até hoje. EL: Mas se perdeu de maneira geral, se perdeu por aí. LR: Culturalmente também. EL: Pois é, quando você vê um filme sobre a Amazônia com a trilha de um cara estrangeiro, entendeu, que é um cara que escreve bem e tal, você fica ouvindo e percebe que não tem o principal, que é o som do Brasil. Não tem como, por melhor que o cara seja, ainda que tenha estudado nos melhores lugares, que escreva super bem prá orquestra. Você pode pegar, sei lá, pegar um cara que eu adoro, o Gil Evans por exemplo, não vai ter essa sonoridade brasileira, vai ter outras lindas, mas se é um filme sobre a floresta amazônica você tem que ter. Quem tem aquele som? Com Villa-Lobos você ouve exatamente essa música que eu estou falando. LR: E o Tom mostrou isso prá gente também.
A Bossa Nova
EL: Por isso que eu estou dizendo, é muito limitativo você falar no Tom como inventor da Bossa Nova, isso eu acho uma coisa muito pequena, muito pouco pra ele. LR: Foi uma etapa dele. EL: É lógico, uma etapa. Por isso que "label" é ruim. Quando é que a Bossa Nova acabou? Essa coisa que me irrita tanto. Acabou quando? Em que dia? "No dia 17 de setembro de 1972 a Bossa Nova parou de existir". Na verdade, ela se transformou, as pessoas foram mudando. Quem ficou naquele som do início de Bossa Nova sumiu com o som do iníco de Bossa Nova. Porque as coisas vão se ampliando, as pessoas vão mudando, vão escolhendo outros caminhos e tal, agora aquilo ali era o nome de alguma coisa que comecou em 58 que teve uma importância fantástica, abriu tudo. Agora cada um vai fazer o que quizer. Vai pros lugares que for. Eu procurei muito na minha época não ficar repetindo o Tom. Hoje em dia, por exemplo, eu acho que a minha música tem muito mais influência do Tom agora que estou com 53 anos. Ou pelo menos, eu acho que rejeito menos a influência dele hoje do que com 23 anos ou 22 anos, que eu tinha que rejeitar, se não estava frito. "Choro Bandido" é um tipo de música que eu não fazia muito na época. SL: Concordo com isso, principalmente essas suas valsas, acho que tem muito... EL: A "Valsa Brasileira". Tem o Villa, tem o Tom, tem essa música que eu aprendi a gostar tanto, que nos alimenta. Por outro lado, tem compositores que você admira profundamente, mas que não te inspiram. Eu posso ouvir meses do Stravinsky, e é lógico que eu sou alucinado pela música dele, pela orquestração. Mas a linguagem dele é muito distante da minha.
Herdeiros
SL: Eu só queria fazer uma última pergunta: muita gente acha você, hoje, o herdeiro natural do Tom. Como é que você sente isso? EL: Não, eu acho que eu sou um dos herdeiros do Tom... SL: Mas eles acham assim que você é o grande músico, que o Tom foi embora e agora é a sua vez. EL: Eu acho que ele deixou muitos herdeiros, acho mesmo que tem muita gente da minha geração que aprendeu com ele e está aí, sei lá. Às vezes, você vai para um lugar e conhece um cara que você nunca viu na vida, que não entrou no mercado nunca, e ele toca uma música e tem lá aquelas coisas todas, aqueles acordes todos.
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