entrevistado por
Luiz Roberto Oliveira e Sergio Lima




SEGUNDA PARTE





O modelo

< Edu Lobo: O Tom pra mim sempre foi uma espécie de modelo, de objetivo, uma coisa assim. Acho que para todo mundo da minha geração.
Meu lance é fazer com que a minha música chegue o mais perto possível desse modelo, desse rigor harmônico e melódico. Eu acho que ele foi muito importante no sentido de atrair as pessoas para essa música, para que elas não tivessem atração por outra coisa.

Músicas comerciais

Porque, inclusive, na música do Tom você tem milhões de exemplos de canções que ficaram extremamente conhecidas, que são extremamente comerciais no melhor sentido da palavra, quer dizer: 'Garota de Ipanema' é uma música extremamente comercial e é uma obra prima... É uma música absolutamente bem feita, bem construida.
LR: 'Samba de uma nota só' também é comercial de mais.
EL: 'Desafinado' é fantástico e nem era comercial para a época. Tornou-se comercial, mas era extremamente revolucionária naquele tempo. Ninguém compunha assim.
LR: 'Desafinado' foi uma coisa incrível...

EL: É, agora a primeira lembrança, eu me lembro que eu já fiz esse teste com todo mundo. E vou fazer com vocês também. Vocês lembram do primeiro dia em que vocês ouviram 'Chega de saudade' ? Você lembra onde foi, aonde você estava?
LR: Com Carlinhos Lyra numa aula de violão, o Carlinhos tocou um pedaço.
SL: Eu ouvi no rádio. Eu morava no interior.
EL: Então você lembra de ter ouvido essa música pela primeira vez. Todo mundo que eu falei lembra. O Caetano lembra, o Chico lembra. Todo mundo que eu já perguntei, lembra. Eu lembro onde eu estava, eu estava em Recife, num dia de verão... Que é isso? Eu não sabia nem direito quem era aquele cara cantando, era a gravação do João (Gilberto)... Não era nem prá gostar de cara, era uma coisa meio prá ouvir e ficar, e ouvir de novo... Que letra é essa? Que música é essa? Que canto é esse? Que violão é esse? Não tinha nada disso naquele tempo. Tinha outras coisas muito boas...
LR: Mas como aquilo, não...
EL: Mas tinha o Caymmi, as canções do Custódio, o Ary Barroso, milhões de coisas lindas. Tinha Villa-Lobos e tal, mas, não tinha essa...
SL: Esse frescor.
EL: Por isso quando você pensa no monte de besteira que se escreveu sobre bossa nova acho que até o próprio nome é meio ruim porque não define nada. Você dizer que o Tom é um compositor bossa nova limita muito...
LR: Limita a abrangência dele.
EL: Exatamente, depois ele foi indo pra outras esferas.
SL: É tão grande essa coisa dele que você vê na novela ' O Rei do Gado' e lá está 'Correnteza', que toda empregada canta, todo mundo canta.
EL: Pois é, e já cantaram Luiza, que abriu uma novela. E é uma música bem difícil de cantar, tem uns intervalos que as pessoas erram normalmente mas... tudo bem, cantam.

Os dois urubus

EL: Agora, fora isso, é o seguinte: ele era uma das pessoas mais engraçadas que eu conheci. Com um humor extremamente pessoal, havia uma espécie de código prá você entender o Tom. Tinha gente que não entendia nada. Por que ele era um cara que, no meio de uma conversa, contava a história dos urubus, por exemplo. Ele inventava muitas histórias, que duravam assim quinze dias, vinte dias. E se você encontrasse com ele três vezes ele nem lembrava que já tinha contado pra você e contava de novo. No final dos vinte dias ele já vinha com uma nova história. Havia milhares, mas uma eu me lembro particularmente, a dos urubus, que era assim:
"Você sabe da história dos urubus que estavam voando?"
(risos)
Não é piada não, é história que ele inventava: "Tinha dois urubus voando assim, lado a lado, e de repente, passou um avião, alto, por cima deles. Aí eles viraram de barriga prá cima, olhando para o avião, e um tocou no outro com a ponta da asa e disse: "Mas como enriqueceu o Walter, hein ?"
(risos)
EL: Isso não é piada, eu nunca ouvi isso como piada, isso era história que ele inventava... Aí eu lembro que na época o Walter Clark era da TV Globo, mas na verdade ele se referia ao Walter Moreira Salles, o cara mais rico do Brasil. Essas coisas a gente vai lembrando. Me lembro também de quando nós estávamos gravando o disco, com muitas baladas e tal, e no estudio ao lado tinha um grupo de rock (não me lembro mais qual era), que também estava lá gravando. E eles eram muito sérios, tudo meio dark, com roupas pretas, óculos escuros e tal. E o Tom falava assim: "Que engraçado, a gente aqui cantando essas baladas dilacerantes, morrendo de rir, e eles tocando aquelas coisas lá, tristíssimos"... É verdade, os caras tocavam rock, e a gente: (cantando) "Adeus, Vem cá Luiza..." E acabava a faixa, piadas, o Walter e aquelas besteiras... Só besteira o tempo todo. Só trocadilho. Ele era especialista em trocadilho, dos piores aos melhores, era muito engraçado.

Album de Teatro

SL: Tem uma história dele e do Chico, que eles brigavam por ler dicionários...
EL: Tinha o negócio de dicionários. Eles tinham todos os dicionários.
SL: E quando você e o Chico gravaram o disco 'Corsário do Rei', vocês chamaram o Tom pra gravar o ...
EL: 'Choro bandido.' Que foi dedicado a ele, inclusive.
SL: E que é muito bonito. Eu conheço umas três gravações, inclusive com você, mas aquela é imbatível.
EL: A gente usou aquela exatamente agora, num disco novo chamado "Album de Teatro", que está saindo em novembro.
LR: Com as peças de teatro que você fez com o Chico.
EL: Com todas as músicas que a gente fez pro teatro, eu e o Chico. E tem exatamente essa gravação que a gente usou, que tem um clima bom, um clima legal. E essa música, quando terminou, eu falei: "Chico, esta música está com a cara do Tom, e aí a gente acabou dedicando a ele, isso antes mesmo do Chico fazer a letra. Acho que era a música que eu fiz que ele mais gostava."

O ouvido musical

LR: E ele ouvia tudo, não é ?
EL: Ouvia tudo.
LR: Ouvido musical...
EL: É, ouvido músical. Ele não tinha ouvido absoluto e reclamava. Ele falava isso um pouco. Ele falava que os engenheiros tinham ouvido absoluto.
LR: Os engenheiros ?
EL: É, ele dizia: os engenheiros têm ouvido absoluto, mas eu não tenho. Não sei se ele lamentava, mas, ao mesmo tempo, sabia que isso é bobagem. Você pode ter ouvido absoluto e nem ser tão musical.
LR: Ele estava acima disso.
EL: Aí ele falava assim: "Você sabe que o Stravinsky também não tem ouvido absoluto ?". Mas, o Tom tinha um ouvido, tinha uma sensibilidade para música extraordinária. Eu cansei de ver isso assim, por exemplo, pintar acorde e o braço dele arrepiar na hora. Ele falava "Olha aqui, ó", aí ele mostrava. Era uma reação imediata pra uma coisa que estava realmente emocionando ele, não estava inventando história.

Liderança

Era um músico total, um músico completo e é por isso que eu volto a dizer que a importância dele para a geração da gente é muito grande. Porque como a gente idolatrava muito o lance do Tom, a gente, prá isso, teve que estudar, quer dizer, quando a gente tocava violão naquela época a gente não sabia porra nenhuma, nem eu, nem você, nem ninguém. Enfim, eu acho que foi importantíssima essa liderança dele.
LR: Ele espalhou uma energia muito grande, um estímulo enorme para todos os músicos...
EL: Sem dúvida. Mas tinha um papo horroroso no Brasil, você deve lembrar disso, numa época em que estudar era ruim, que você ia perder sua autenticidade...
LR: A naturalidade.
EL: Mas acho que qualquer tipo de atitude no Brasil com relação a estudo, cria esse tipo de idéia absolutamente reacionária e perigosa. Tem várias histórias... porque o Caymmi tentou estudar com o Guerra Peixe e o Guerra Peixe teria dito: "Ah! não, você não mexe nisso não, por que não se mexe em time que está ganhando...", entendeu, e talvez nem seja verdade essa história. Agora eu acho que existem os compositores naturais...
LR: Tipo Caymmi. Dorival Caymmi é um compositor natural.
EL: O que eu não posso concordar é que, se o Caymmi tivesse estudado, se ele tivesse decidido estudar, seria prejudicial prá ele, entendeu? Lógico que não. Agora, colocar o estudo como sendo um elemento pernicioso pro trabalho, prá obra de alguém...
LR: E o Tom estudou música.
EL: Estudou piano. Estudou orquestração, estudou os clássicos. Se você pode aumentar seu vocabulário, é lógico que você vai escrever melhor.
O talento é que não vai mudar, vai sempre o mesmo, tá certo, você tem ou não tem. Se não tem talento não adianta estudar, vira no máximo um grande musicólogo. Mas, se você tem o talento, se ele pode ser desenvolvido, por que não ? O ouvido desenvolve, o ouvido melhora, você melhora como ouvinte.
LR: Você entende melhor a música.
EL: Vai te fazer bem, é lógico . E isso tudo, pra voltar a falar do Tom.

Fim da segunda parte.


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