Dori Caymmi não veste Giorgio Armani

entrevistado por
Sérgio Lima e Luiz Roberto Oliveira




CAPÍTULO IV








Bonfá e Dick Farney

DC: Tem havido uns concertos em homenagem ao Tom. O primeiro tributo, eu fui convidado, tinha o Lee Ritenour, o Dave Grusin. Nana foi com Danilo. Eu recusei terminantemente; não posso cantar Tom Jobim que eu choro, acabou. Aí, um ano depois, um amigo me ligou de Nova York, falou “pô, tem orquestra aqui, eu quero que você me escreva uma coisa e cante uma coisa pro Tom”. Digo: “Não, não sei...” -“Pô, mas vai ser legal”. Bom, fui. No ensaio já chorei, cantando a dele com Bonfá: (Dori canta) “A correnteza do rio vai levando aquela flor...” Que tem uma fase do Tom com Bonfá que é uma glória!
LR: Lindíssima!
DC: É uma coisa de louco...
LR: Tem ‘A Chuva Caiu’ que também é deles.... (Luiz cantarola) “a chuva caiu, caiu lá na serra...”
DC: É, e o Bonfá é um compositor que fala assim: “uma canoa vai, descendo o rio, vai...” É só você dar uma olhada no repertório do Dick Farney, ‘Perdido de Amor’, ‘Alguém como Tu’, que você vai descobrir o Bonfá compositor, que ninguém vê. Eles vão descobrir o Bonfá depois, quando eles fazem o Orfeu...
SL/LR: ‘Manhã de Carnaval’.
DC: ...que é: “Manhã tão bonita manhã...”. E aquele lá lá lá lá lá/ lá la lá lá (Dori cantarola o Samba de Orfeu) Aquele é chato, lá lá lá...
LR: É, é meio chatinho...
DC: ...que é aquele samba-exaltação...mas esse...
LR: "Correnteza" é uma maravilha de música, música e letra e tudo...
DC: É lindo, rapaz. O Bonfá é um dos meus favoritos. Bonfá e Dick Farney é uma dupla prá mim, assim... o cantor e o compositor maravilhosos.


A idade da rapaziada

DC: Eu já escutava o Tom nessa época, essa música que mudou a minha geração completamente. Porque Carlos Lyra é produto exatamente dessa coisa da Bossa Nova, desse início de Bossa Nova que ficou uma coisa muito assim... Mas o Carlos Lyra é o mais romântico de todos esses compositores que vieram, né? E ele é quase contemporâneo do Tom, Carlinhos tem sessenta anos de idade, pelo menos...
LR: Carlinhos está com 60 e poucos... Não, pelas minhas contas deve ter mais, tem uns 64...
DC: Ronaldo Bôscoli... Ronaldo Bôscoli tinha uns 65, 66, eu acho. É tudo perto do João Gilberto, um pouco mais moço do que o Tom; mas se eles são mais moços que o Tom, são três anos; o Tom é 14 anos mais velho que eu, pô!
LR: Você quantos anos tem?
DC: 53, vou fazer 54. O Tom era mais velho, era 16 anos. O Tom faz 70 anos agora.
DORIVAL: Se eu não me engano, há uma coincidência: o Tom faleceu na mesma idade que faleceu o Vinícius.
LR: 67 anos.
DORIVAL: Eu reparei isso outro dia...
DC: Ele conta até uma estória triste, a Helena fala que eles levaram o Vinicius, que ele
( o Tom) ficou com pena do Vinícius, levaram o Vinícius pro alto da serra. Lá pro Poço Fundo...
LR: Pro sítio, em Poço Fundo...
DC: ...que foi uma das coisas mais importantes na vida do Tom, foi esse Poço Fundo. Ele adorava o Poço, que é o sítio do Celso Frota (padrasto de Tom). E ele levou o Vinícius lá e a Helena Jobim conta que o Vinícius já não podia mais andar sozinho e disse: “Então eu prefiro morrer do que viver assim”; que o Vinícius teria dito uma coisa desse gênero. Mas eu não sei com que idade o Vinícius morreu, não.
SL: 67, foi a mesma idade.
DC: É.


Você vai ficando babaca

LR: Dori, aqui vai uma pergunta importante. O que é o Tom pra você?
DC: Olha, eu tenho dois compositores no Brasil que eu jamais esquecerei como formação musical. E toda vez que eu ouço é pura emoção, pelo trabalho: Papai e Antonio Carlos Jobim. Os outros eu aprecio, já respeitei muito o trabalho e essa coisa... agora, pra mim, a reação de pele mesmo assim de chorar quando eu estou longe, eu pego um violão pra cantar uma coisa do Tom ou do Papai, uma coisa assim, tudo... que eu vou treinar... eu fui treinar ‘Sargaço Mar’, fui cantar no estúdio, chorei. Porque é uma coisa... fui cantar no programa do Faro, comecei a chorar de novo. É difícil, né? Você vai ficando velho, vai ficando babaca.


O segundo pai

DC: Tom Jobim... Eu tenho duas fases da música popular brasileira, o primeiro tempo começa com Dorival Caymmi, o segundo tempo, Antonio Carlos Jobim. Todo o resto que me cercou eu acho maravilhoso, eu elogio, eu acho fantástico, os meus contemporâneos aí, o Ary Barroso, de quem eu tive bronca porque ele deu uma entrevista uma vez, que eu li, dizendo uma coisa do Papai no jornal que eu queria matar o Ary; depois não era nada disso, quer dizer, era um cara até amigo do Papai, eu é que era uma besta... Mas eu era menino, fiquei chateado né, porque você... o pai é o herói. Se vai falar mal do meu pai vai ter porrada até morrer. E do Tom.

Papai entra na minha vida com a importância de um homem que criou uma família com esses olhos, tocando violão e cantando a melhor música que tem nesse país.

O Tom é o segundo pai. Nos ensaios e no estúdio de gravação, vem mostrar que é importante o acorde, a harmonia, a percepção toda, a melodia, o encanto da orquestração, o detalhe, todos os detalhes, tudo o que há de melhor...
E a gente diz assim: “Bom, qual seria a progressão harmônica neste trecho de música...”
As dele são sempre definitivas, né? Tudo nele era definitivo.

Dori Caymmi: compositor, cantor, arranjador, 
filho de Dorival.


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