entrevistado por
Sérgio Lima e
Luiz Roberto Oliveira



CAPÍTULO I









Meu primeiro herói

 

Luiz Roberto Oliveira: Estamos aqui finalmente conversando com nosso querido Dori Caymmi, e com a benção de Dorival Caymmi que...
Dori Caymmi: Dorival tá ali. Que também pode contar umas coisas do Tom.
LR: Se ele der esse presente prá gente, vai cair do céu.
DC: Papai depois você pode dar um depoimento sobre o Tom, sobre coisas curiosas do Tom, tá bom?
LR: Não vamos esquecer nunca mais.
Dorival Caymmi: Vocês me pagam?
LR: É de graça...
Dorival: Tô brincando!
Sergio Lima: ...eu estava explicando aqui pro Dori, nós nos interessamos muito por certas gravações que o Tom fez mas que não são muito conhecidas, são discos em CD ou coletâneas, por exemplo: pouca gente sabe que ele participou de um disco da Nara...
DC: A gente quer saber onde ele esteve.
SL: Exatamente.
DC: Eu informo, eu fiz muitos trabalhos com ele. Por exemplo, o meu primeiro contato com o Tom foi puramente um menino enchendo o saco do herói, porque eu estudava num colégio interno e comecei a ouvir músicas importantes na minha vida e disse “meu Deus que coisa é essa, não é só meu pai que é bom, já tem outro cara por aqui que é bom”. Porque papai sempre foi meu primeiro herói. Aí eu comecei a ouvir “é de manhã vem o sol mas os pingos da chuva que ontem caiu, ainda estão a brilhar ...” (Dori cantarola “Estrada do Sol”) aí eu disse: “meu Deus do céu que música é essa, que cara é esse...” (continua cantando) “Ah! Você tá vendo só do jeito que eu fiquei...”. Então o primeiro contato que eu tive com ele foi em 1954, a gente morava num edifício aqui no posto 6 mesmo (em Copacabana), ele veio com Donato, eles tinham gravado... nem o Donato lembra, nem ele lembrava mais disso. Eram aqueles porres. Eles chegaram já de dia com o disco, tocadões. Tinham gravado uma faixa, era “Pagode em Xerém”. (Dori canta) “...fui a um pagode lá em Xerém ... comunico e participo, ...”

Amigo de privada


LR: Isso era música do Tom?
DC: Eu acho que era música do Tom com Donato.
LR: Pagode em Xerém! Sergio, essa aí nós precisamos pesquisar...
DC: Agora eu não tenho certeza se a música é deles. E do outro lado era “Feitiço da Vila”, (Dori se engana e canta “Palpite Infeliz”) “Quem é você que não sabe o que diz...”
LR: Com o Tom?
DC: Tom, Donato, todo mundo.
LR: 78 rotações?
DC: Possivelmente. Na época, década de 50, possivelmente. Era um acetato até, tinha cara de acetato.
LR: E foi então que você conheceu o Tom pessoalmente?
DC: Pessoalmente.
LR: Antes você já ouvia “Estrada do Sol”, “Por causa de você” com a Silvinha Telles, e tal...
DC: Ouvi tudo, quer dizer eu ouvia muito esses cantores da época, assim, por exemplo, Dick (Farney), Lucio (Alves), Silvinha (Telles), eram os mais cotados.
SL: O Johnny Alf também?
DC: Alf menos, mas...
SL: Mais em São Paulo, talvez?
DC: É, o Alf menos, porque apesar de eu tê-lo conhecido mais tarde, o Johnny Alf tinha menos penetração no rádio, o Johnny era mais quietinho, então Lucio, Dick e Silvinha eram os cantores modernos, que estavam começando essa fase de (renovação). Então se você queria ouvir Dolores, Tom, Vinicius, era com esses cantores sempre, mais até com Lucio e com a Silvia, principalmente com a Silvia Telles.
LR: Que era cantora moderna e que tinha um bom gosto incrível, por que ela apostou no Tom Jobim e o Tom apostou nela.
DC: A Silvinha Telles é a grande cantora da fase antes da Elis Regina. E além da escolha de repertório, que mulher incrível era a Silvinha, eu era amigo dela de privada, eu adorava a Silvinha Telles, achava a Silvinha Telles maravilhosa.


Faltava um detalhe

LR: Dori, quando você ouviu as primeiras músicas do Tom, elas chamavam a atenção, como uma coisa melhor do que o que se ouvia na época?
DC: Eu notava o seguinte: até então tinha uma coisa moderna, que eu aprendi a ouvir, o Ismael Neto por exemplo, a música começou a ficar bem moderna, e tinha Os Cariocas também, aquelas coisas. Mas eu notava que ainda faltava um detalhe, que eu só fui encontrar quando eu ouvi as músicas do Tom pela primeira vez. (canta) “Quando um coração que está cansado de sofrer...” Aí dançou, aí acabou pros outros, não teve prá mais ninguém. Quando eu ouvi essas coisas eu falei, quem é esse cara? E ao mesmo tempo quem era o João Gilberto, quem era esse violão? Que, dizem as más linguas, tinha um companheiro dele que teria ensinado prá ele primeiro, que teria descoberto antes dele esse som de violão.
SL: Walter Santos?
DC: Não é o Walter não. Era um colega dele, com quem João aprendeu a tocar esse lance. Quer dizer, eu acho até que as pessoas tentam esvaziar um pouco a bola do João Gilberto, que é uma pessoa que eu considero um craque, e é o meu violonista, foi ele que mudou o som do instrumento, não tem outro. Mas eu não concordo com a doença, com a neurose, e o Tom não tinha isso. O João é um cara que gosta de usar as coisas e fazer essa atitude anti-profissional, que o Tom nunca teve. O Tom foi sempre muito amistoso, sempre preocupado em não ferir as pessoas. O João Gilberto está cagando prá isso, o João Gilberto fere mesmo, entendeu, e...
SL: O Carlos Lyra fala muito nisso...
DC: Desliga o ar condicionado, pára não sei o que, se falar eu não toco... essas coisinhas, essas frescuras, entendeu, que o Tom nunca teve.


O padrinho do João


SL: Na entrevista que a gente fez com o Edu (Lobo) ele nos falou de uma brincadeira que ele costuma fazer que é assim: “Onde é que você estava no momento em que você ouviu pela primeira vez ‘Chega de saudade’?” Ele acha que todo mundo lembra desse momento...
DC: Não, o Vinicius tinha mania de dizer que o “Chega de saudade” era um marco da bossa nova, essa coisa toda, eu não acho não.
LR: Prá mim aquilo era um chorinho que o Tom já tinha feito antes, tem toda a forma de choro.

DC: Quando eu ouvi as primeiras músicas do Tom, eu notei que ele era um compositor diferente, havia também o piano que ele tocava, mas eu não considero o “Chega de saudade” um marco. O Vinicius considerava, ele dizia: “Chega de saudade é o marco”. Eu não acho que seja marco nenhum. Agora, se o marco da bossa nova é o disco do João Gilberto chamado “Chega de saudade”, aí eu concordo. E o LP “Chega de saudade” do João Gilberto vem depois do “Chega de saudade” da Elizete Cardoso (gravado no LP “Canção do amor demais”), produzido por um amigo de papai, um maluco, um sonhador que gravou só dois discos na vida: “Canção do amor demais” e “Por toda a minha vida”, com a Lenita Bruno.
LR: É o Irineu Garcia (dono da gravadora Festa).
DC: Pois é, o disco do Irineu é anterior ao disco do João Gilberto. E quem apadrinhou o João Gilberto está sentado alí: papai. Foi por causa dele que João Gilberto começou a gravar na Odeon, e foi nessa época que ele gravou o “Chega de saudade”.

Dorival: Foi depois de uma conversa minha com o Sr. Morris, presidente da Odeon, que a gravadora resolveu trazer o Aloysio de Oliveira para o Brasil. Ele ocupou o cargo de diretor artístico, e viu que estava nascendo uma música nova por aqui.
DC: Aloysio de Oliveira veio plantando a semente do João.
Dorival: O Irineu (Garcia) fazia aquilo por paixão, procurando artistas novos pela noite. O interesse dele voltou-se para Elizete, mas aí João Gilberto nem era conhecido ainda.

DC: É por isso que eu estou dizendo para você, o João vem depois que aconteceu essa coisa do Irineu Garcia, e depois que a Elizete e a Silvinha Telles já vinham gravando uma série de coisas maravilhosas da música brasileira. Tem que ter uma cronologia aí. Antes da bossa nova estourar com o João, vários cantores como o Dick Farney, o Lucio Alves, a Silvia Telles, o Tito Madi, já tinham gravado... O Lucio e o Dick gravaram um samba do Tom que é “Lucio, arranjei novo amor...”
LR: É Tereza da Praia. E o Dick gravou “Outra vez” ainda no estilo samba-canção, bem lento: “outra vez...vou chorar...”.
DC: O Tom dessa época é completamente diferente do Tom Jobim dos Estados Unidos para cá. Ele era um rapaz tímido, aliás a Helena (Jobim) diz isso no livro muito bem, ela descreve como irmã as fraquezas do Tom assim em menino, ele era muito angustiado, respirava mau, tocava piano, e ele tinha aquele negócio do cigarro, ele parecia um enfizemático, medroso, era um cara medroso prá vida. Por outro lado, era um charme, vivia sorrindo... mas com medo.

No próximo capítulo:
Dori conta como começou a trabalhar com Tom.


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