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Quando em Maio de 1956,
através de um milagroso conjunto de circunstâncias, um amigo
propoz-me financiar a peça exatamente 24 horas antes de eu tomar
meu avião para Paris, onde me encontro em pôsto, um dos problemas
mais sérios que me coube resolver foi a escolha do músico,
de um compositor que pudesse criar para o Orfeu Negro uma música
que tivesse a elevação do mito, uma música que unisse
a Grécia clássica ao morro carioca, uma música que
reunisse o erudito e o popular - uma música "poética" que,
mesmo servindo ao texto, tivesse uma qualidade órfica. Numa conversa
com meus amigos Lucio Rangel e Haroldo Barbosa foi-me ponderado o nome do
jovem maestro e compositor Antonio Carlos Jobim, com quem eu de raro em
raro privara em 1953, nas noites do finado Clube da Chave. Achei a idéia
excelente e puz-me imediatamente em contacto com Tom, como é popularmente
conhecido, resultando daí não apenas uma parceria, mas uma
amizade que hoje sinto de grande importancia para nós ambos. Com
a idéia de se criar uma ouverture para grande orquestra, que apresentasse
os temas principais das personagens de maneira a colocar o espectador, ao
abrir do pano, no ambiente emocional da peça, entreguei a Antonio
Carlos Jobim a minha valsa Eurídice", composta em Strasburgo,
e que desde então passou a representar para mim o tema romântico
de Eurídice no espaço musical da imaginação
de Orfeu. Confesso que a excelência do trabalho que me foi sendo pouco
a pouco apresentado pelo compositor, excedeu tôdas as minhas espectativas.
Usando com grande habilidade elementos dos modos e cadências plagais
que criam uma ambiência grega perceptível a qualquer pessoa,
Antonio Carlos Jobim partiu realmente da Grécia para o morro carioca
num desenvolvimento extremamente homogêneo de temas e situações
melódico-dramáticas, fazendo, no final, quando a cena abre,
o samba romper sobre o morro onde se deve processar a tragédia de
Orfeu. Os sambas criados especialmente para a peça, de parceria nossa,
constituiram sem dúvida a parte mais agradável do nosso trabalho.
Ao conhecedor de música não escapará na estrutura melódico-harmônica
dos mesmos o aproveitamento dessas mesmas cadências plagais de que
falei, e que combinam, a meu vêr, maravilhosamente bem com o ritmo
negro brasileiro. Esses sambas são, do ponto de vista da peça,
as criações populares do sambista Orfeu da Conceição
e funcionam de maneira dramática predeterminada comentando a ação
e acrescentando-lhe os elementos sem os quais a tragédia não
funcionaria: os elementos da música harmonizadora e destruidora que
constituiu o privilégio do divino tocador de lira da antiga Trácia. |