Folha de S. Paulo, Ilustrada, 2.maio.1998
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Luiz Roberto Oliveira especial para a Folha |
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A primeira impressão que se tem da leitura da matéria Cidade assiste novo tributo a Tom Jobim (Folha de S. Paulo, Ilustrada, pag. 14, 24 de abril de 1998) é de que a jornalista Sylvia Colombo foi designada para escrever sobre um assunto do qual não gosta. O descaso pela música de Tom Jobim torna-se patente ao constatarmos que a jornalista buscou no conteúdo do show os atributos da novidade e da ousadia, que de maneira nenhuma são requisitos essenciais no programa apresentado pelo Quarteto Jobim-Morelenbaum e pelo convidado ultra-especial João Gilberto.
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Tom Jobim é o maior compositor de música popular brasileira de todos os tempos, e um dos maiores da música popular no mundo. Os integrantes do quarteto participaram durante anos da banda que se apresentava com Tom em seus shows, e com ele tocaram nas gravações de alguns discos antológicos. As músicas de Tom Jobim são interpretadas por músicos pelo mundo inteiro, e frequentemente modificadas no conteúdo, harmonia, contramelodias, e ritmo. Nada de errado nisto, e cada artista que as mostre com sua própria visão. E é aqui que aparece um dos atributos que torna o Quarteto Jobim-Morelenbaum especial e importantíssimo: é hoje o único grupo que executa Tom Jobim com completa fidelidade às características e nuances do pensamento musical do maestro. Todas as notas, acordes, fraseado, figuras rítmicas, dinâmicas, tudo é mantido como nasceu: com o toque do mestre. |
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O Quarteto Jobim-Morelenbaum é um documento vivo do gênio de Tom Jobim, e como tal deve ser encarado. Paulo Jobim, filho de Tom, que toca violão no grupo, esteve ao lado do pai em grande parte de sua carreira. Fez arranjos, direção musical de shows, e até tocou sintetizador na banda de Tom. Daniel Jobim, desde criança, ficava ao lado do avô no piano, em casa e nos ensaios. Aprendeu o mesmo toque cheio de leveza e elegância. |
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Neste Brasil desmemoriado, o Quarteto Jobim-Morelenbaum desempenha a função essencial de mostrar Tom Jobim como ele realmente era. Criticá-lo por não se mostrar novo ou ousado é encará-lo com a miopia dos que preferem a novidade à qualidade. Ou será que Sylvia gostaria de ouvir o Quarteto tocando Tom Jobim em ritmo de rock, ou em axé, ou segurando o tchan? Ou que seus integrantes dançassem e pulassem pelo palco? O contexto no qual a jornalista aplica à bossa nova a classificação de movimento datado deixa em plano inferior a importância de um estilo que renovou a música no Brasil e no exterior, e que influenciou tantos compositores que vieram mais tarde. Pior do que isto, entretanto, é classificar uma homenagem a Tom Jobim como uma celebração à bossa nova. Isto mostra, no mínimo, uma desatenção para com a diversidade dos estilos que ele usou em suas composições. Tom não foi um compositor bossa nova: Tom passou pela bossa nova, fez alguns dos maiores sucessos do gênero, mas não ficou por aí e foi muito além dela. O programa do Quarteto incluiu várias músicas de Tom que não são bossa nova. |
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E Bach? E Mozart? E Stravinsky, que em 1913 virou a música de cabeça para baixo? Também são datados. E John Eliot Gardiner dirigindo a Orchestre Révolutionnaire et Romantique, que gravou as nove sinfonias de Beethoven, os músicos tocando em instrumentos fabricados especialmente para reproduzir com fidelidade as sonoridades da época? Tudo datado. E João Gilberto? Datado, evidentemente. Suas excentricidades e frequentes reclamações da má qualidade do equipamento de som não escondem a extrema honestidade e o empenho com que persegue seu ideal de perfeição. Felizes dos que estiveram no Teatro Alfa Real (na opinião da jornalista, a única novidade do show), e que souberam relevar os comentários um tanto ranzinzas de Joãozinho. Ouviram a voz e o violão do maior gênio vivo da música popular brasileira. Relembrando as músicas que João cantou, penso em estudar uma delas no violão, e oferecê-la à Sylvia Colombo: Vamos acabar com o samba |
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Luiz Roberto Oliveira é músico, diretor da produtora de som Norte Magnético, e mantém na Internet o site Clube do Tom (http://nortemag.com/tom), sobre Antonio Carlos Jobim. |