UM PIANO EM LÁGRIMAS
por Ricardo Serrano

Rio de Janeiro, 2001

 

Tínhamos o mesmo feiticeiro, eu e o maestro Antonio Carlos Jobim. Mas justiça seja feita: eu o conheci (o feiticeiro) antes.

Naqueles idos de 1977 havia no Rio de Janeiro um programa imperdível nas noites de sábado, as celebrações, digamos assim, na casa do Lourival de Freitas, o Nero. Era um acontecimento; encontros com gente famosa (atrizes, atores, músicos, escritores, etc.), música rolando até altas horas, conversas dos mais diferentes naipes, bruxarias explícitas e implícitas, e, o maior atrativo, direito de assistir em tempo real, as cirurgias realizadas pelo já citado feiticeiro.

Aliás, essas cirurgias eram muito loucas. O sujeito empunhava, via de regra, uma tesoura, gilete ou faca de cozinha e mandava ver. A impressão era de uma confusão enorme, e quem observava não podia deixar de pensar em mecânicos birosqueiros, trabalhando atabalhoadamente e com tanta falta de método, que seria praticamente impossível não sobrar alguma peça para trás. Mas a coisa acabava dando certo, e o paciente (também digamos assim) geralmente integrava-se à muvuca, lépido e fagueiro, tão logo encerrava-se a dita cuja.

Bem, o assunto aqui é o Tom, e foi lá na casa do Lourival que eu conheci o Antonio Brasileiro, levado pelo Luiz Roberto. O maestro andava um pouco intoxicado - afinal de contas, não se é amigo e parceiro de Vinícius impunemente - e a idéia era um tratamento à base de ervas, a fim de dar uma zerada no seu (dele) sistema operacional.

Desnecessário dizer que as conversas com o Tom assumiram lugar de destaque nos procedimentos pré-operatórios, e eu fui entrando devagar naquele contexto dele, básico para o entendimento das suas músicas, falando de bichos e florestas. Foi a partir dali que eu acho que comecei a entender o real significado da ecologia. Uma das conversas habituais do Tom era sobre o porque dos nomes de bichos, lugares e plantas. O nome do Jasmineiro, por exemplo, que, segundo ele, devia-se a uma planta que cresceu no lugar onde "jazia um mineiro".

Mas a história que eu queria mesmo contar, aconteceu numa noite de fevereiro de 1979. O padrasto do Tom (que ele considerava como pai) havia acabado de falecer e, por acaso, estávamos na casa do Lourival, eu, minha mulher, Sônia, e minha mãe. O Tom estava muito triste, e o nosso feiticeiro sugeriu uma visita para dar uma força.

Assim, lá fomos nós para a rua Peri, no Jardim Botânico, onde ele morava. Quando chegamos, ainda no jardim, (como descrever?) fomos imobilizados pelo som do piano que vinha da casa. Era um piano dilacerado e quase sobrenatural, um som e um silêncio em perfeita conjugação, uma queixa solitária, onde, de repente, se pretende botar tudo para fora, e, ato contínuo, percebe-se a inutilidade do gesto. Mas mesmo assim, impossível reagir, a coisa ( o som ) continua fluindo.

Sentamo-nos todos na varanda, impregnados daquele arrebatamento, e não pude deixar de pensar em Borges e no seu Aleph: um ponto onde coexistem, sem se misturar nem se sobrepor, todos os pontos do universo. Naquele jardim, durante poucos minutos, a magnitude do som criou uma sensação do Aleph.

Vi um jereba passar, bubuiando no vento, brincando de voar entre paredões de pedra. Ouvi, distante, o barulho de um bicho grande (provavelmente uma anta) jogando-se num rio, onde numa margem a montante, estava, impassível, um índio. Ouvi piar um macuco, e, logo após, outro macuco, e não percebi, por um instante, o ruído das moto serras. Adiantei-me muitos anos no tempo e li, na contra capa de um livro, uma história sobre espíritos santos e não santos e uma grande amizade.

De repente, o piano fez uma pausa, e nós conseguimos retornar para nós mesmos e tocar a campainha. Entramos e o Tom voltou a percorrer o piano, um pé cá e o outro lá, mas o momento havia passado. O Lourival puxava conversa, tentando trazer o homem mais para cá, quando a minha mãe - sempre as mães - mandou bala: "Tom, você sabia que o Ricardo (eu mesmo) tem uma música muito bonita?". O Tom, lá das profundezas, respondeu sem sentir: "Ah é? tem mesmo?" voltou ao piano e arrematou "como é que é?". Eu, todo sem graça, comecei a cantarolar a tal música, e foi aí que o fantástico virou rotina. Pois não é que o Tom começou a buscar a harmonia no piano e foi atrás? Naquele instante a ficha caiu e a situação tornou-se aterradora. Eu estava cantando a minha música e o maestro Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim estava me acompanhando!!! Meninos, eu vi. Foi melhor do que ser eleito presidente do Senado Federal, e eu só pensava: ele está tocando a minha música! Desejei ardentemente que, por uma estranha e absurda conjunção astral, o pessoal de Brasília pudesse ver aquela cena inacreditável e inesquecível.

A travessia durou apenas um instantezinho enorme, e o maestro, definitivamente lá, voltou à sua tristeza, entortou caminho para norte-norte e saiu navegando o seu piano na direção de uma manhã noiteira, de corta viagem, ainda distante.

Sensação parecida com a daquela noite, só fui ter muitos anos depois, em Fernando de Noronha, quando mergulhei no naufrágio da Corveta Ipiranga. Mais aí, já é outra história.

 
  Ricardo Serrano é poeta e compositor, mas insiste em dizer que sua atividade principal é a economia.

 


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