Veja também:

Por toda minha vida
Informações sobre o disco

Texto de Tom Jobim para a contracapa do disco

Mais informações sobre Leo Peracchi no site do Sesc S. Paulo.

Memórias do rádio

Luiz Roberto Oliveira
19.ago.2001

Leo Peracchi

"Temos o prazer de apresentar agora: Festivais GE, com a orquestra da Rádio Nacional dirigida pelo Maestro Leo Peracchi."

Desde aquele tempo em que o rádio era um dos poucos meios de comunicação com o mundo exterior, e quando, na casa no subúrbio da Penha, no Rio de Janeiro, a família se reunia à noite em volta daquele aparelho que tanto nos divertia, esta frase dos locutores da Rádio Nacional gravou-se firmemente na minha memória. Segunda metade da década de 40, e talvez começo da de 50, após o fim da Segunda Guerra e do gasogênio.

Uma de minhas irmãs estudava canto lírico todas as manhãs, frequentemente aplaudida por duas vizinhas do outro lado do muro. Ouvinte fiel e assíduo dos estudos de canto, Bob, nosso cachorro vira-lata, largava sem hesitação seus afazeres no quintal para postar-se enternecido ao pé do piano, muitas vezes contribuindo com seus pungentes uivos para o brilho daquelas récitas matinais. Minha irmã tomava aulas com o Professor Murilo de Carvalho, e nos falava sempre sobre o talento de outra aluna que costumava chegar quando sua aula já estava acabando: a jovem soprano Lenita Bruno.

O maestro cujo nome já me era familiar desde a infância teve algumas importantes participações na carreira de Tom Jobim: primeiramente foi seu professor, numa época em que o jovem compositor, ávido por novos conhecimentos, queria enfronhar-se nas técnicas da orquestração. Leo Peracchi era amigo de Villa-Lobos, que o solicitava para ler no piano novas partituras orquestrais. Um belo dia, levou Tom para conhecê-lo – a história deste encontro, e das conversas entre os três, foi mais tarde contada por Tom em diversas oportunidades.

Peracchi regeu a orquestra na semana de estréia da peça "Orfeu da Conceição", no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com Tom Jobim ao piano e Luiz Bonfá no violão. Primeira parceria da dupla, "Orfeu" tinha texto de Vinicius e música de Tom e Vinicius. Faz parte do disco a "Valsa de Orfeu" (também chamada de "Valsa de Eurídice"), música e letra que Vinicius criou para a peça.

No LP orquestral "Cocktails", Leo Peracchi gravou excelentes arranjos para três músicas de Tom Jobim: "Latin manhattan", "Coffee delight", e uma outra que no disco chamou-se "Moonlight Daiquiri". Tom me disse que esta música tinha o nome original de "Valse". É uma das primeiras composições de Tom Jobim, feita por volta de seus 17 ou 18 anos, num período em que estava estudando os autores eruditos. Nota-se claramente a influência de Ravel nesta peça. Anos depois, a letra de Chico Buarque rebatizou-a como "Imagine", título que finalmente permaneceu.
Leo e Tom, no show "Tom & Elis"

Tom Jobim convidou Peracchi para fazer os arranjos e dirigir a orquestra no show "Tom & Elis", apresentado em S. Paulo, num teatro da Av. Brigadeiro Luiz Antonio. Eu assistia aos ensaios todas as tardes, fascinado. Lembro-me de algumas passagens pitorescas destas sessões, com o palco dividido ao meio: de um lado, Leo e orquestra; do outro, Cesar Mariano e seu grupo. Elis ficava na frente, e Tom juntava-se a ela quando não estava tocando piano. Nem sempre o clima era de perfeito entendimento - mas estas histórias ficam para uma outra vez.

A seleção do LP "Por toda minha vida" documenta muito bem um dos estilos de composição que Tom Jobim e Vinicius de Moraes mais gostavam de praticar: a canção de câmara. O compositor brasileiro Claudio Santoro um dia ouviu de Villa-Lobos: "Você, Claudio, que gosta de fazer canções, tome cuidado, porque agora tem o Tom Jobim, que anda por aí fazendo coisas formidáveis."
Leo Peracchi e Lenita Bruno (de vestido escuro e colar) eram casados na época em que fizeram o disco. Nesta foto aparecem com a filha Miriam e familiares.

"Por toda minha vida" foi lançado em 1959. Um ano depois do LP "Canção do amor demais", clássico e revolucionário a um só tempo, quando Elizete Cardoso, os arranjos orquestrais de Tom Jobim e o violão de João Gilberto anunciaram ao mundo que havia algo no ar além do samba-canção. Algumas músicas gravadas por Elizete foram novamente interpretadas por Lenita Bruno, em estilo um pouco mais erudito, com orquestrações e regência de seu marido Leo Peracchi. Outras novas canções também foram incluídas no disco. A mesma simplicidade que é uma marca das músicas de Tom Jobim está nos arranjos de Peracchi para o LP, aqui caracterizada por uma incrível economia de notas, tudo resultando em uma textura clara e comovente.

Curiosamente, o nome de Peracchi não aparece nas informações de capa do LP original, talvez por vínculo contratual com outra gravadora. Mas Tom esforça-se para compensar esta lacuna no final do manuscrito que fez para o disco: "A quem não tenho permissão para citar nesta contracapa a minha gratidão...".

A força do canto lírico de Lenita permeia as letras de Vinicius e Tom, conferindo-lhes uma dimensão surpreendente. É fácil imaginar como a dupla de compositores deve ter gostado deste disco.

 


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