Publico aqui os relatos que recebi de Antonino, um colecionador de discos de Tom.
O mistério agora já está completamente elucidado, com as informações enviadas por Erico San Juan.

O Clube do Tom agradece a Antonino - que levantou a questão da autenticidade - e ao jornalista Erico San Juan - um antigo entusiasta deste site - pelo empenho em conduzir o caso a um ponto final.

Mas a novela continua, com um fato novo que nos foi enviado por Antonio Ortiz, da Espanha. Será que esta pirataria é multinacional?

Luiz Roberto Oliveira



31.março.97

Meu caro Luiz,

Meu nome é Antonino Mena Gonçalves e moro em Bethesda, que faz parte da grande Washington, USA. Colecionador ávido e obsessivo de música brasileira, tenho procurado completar discografia a mais completa possível do Tom, para guardar para meus descendentes a obra monumental de Jobim-Açu, mestre de tantos. A tarefa tem sido um pouco complicada porque as listas que tenho consultado contêm discrepâncias aqui e ali, mas nada de muito grave.

Eis que achei outro dia, em Nova York, um CD que me embatucou, pois jamais encontrei qualquer referência a ele nas relações já vistas, entre as quais a do seu Clube do Tom (que é ótima, aliás). Achei que era disco de montagem, artigo que não me interessa, mas examinei melhor e a ficha técnica parece indicar que não é. O nome do CD é ESTRADA BRANCA, gravado em Nova York em 1969, com o Claus Ogerman, e contém as seguintes faixas:

Samba de amor
Three note samba
Cupids
Live for tomorrow
Samba não é brinquedo
Incerteza
Estrada branca
Girl upstairs
O morro
Lamento

Você teria alguma informação sobre esse disco? Alguma idéia de como resolver esse enigma? Será que o nosso Tom está gravando lá no Céu e fazendo aparecer discos nas lojas de Nova York? Por favor, dê-me alguma dica.

6.abril.97

Meu caro Luiz Roberto,

Aqui estou outra vez, com a solução do mistério do disco "Estrada Branca", sobre o qual trocamos e-mails recentes. Comprei hoje o disco e, para minha surpresa, verifiquei que se trata de uma edição inédita, ou pelo menos é isso que afirma a gravadora.

O disco é produzido por uma certa Kardum/IMP, cujo endereço é 5, Passage Saint-Sébastien 75011, Paris, e distribuído por NIGHT & DAY, 30 bis, rue du Bailly 93210, La Plaine Saint-Denis. O texto que acompanha o CD diz que se trata de uma gravação de 1969 e indica que deve, na discografia do Tom, ser incluído entre "A certain Mr. Jobim", de 1967, e "Tide", de 1970.

O mesmo texto explica que a gravação original foi feita em abril de 1969, em Nova York, no A & R Studio, para o selo Versatile, que abriu falência antes de lançá-la comercialmente. Segundo ainda o texto, as fitas ficaram sob custódia de advogados, que resolveram promover sua publicação em 1995, motivados pela morte do nosso Tom em 94.

O CD tem onze faixas, das quais seis de autoria do Tom e parceiros: Janelas abertas, Samba não é brinquedo, Incerteza, Estrada branca, O morro e Lamento. As outras cinco faixas são: Samba de amor (V. Borjas), Three note samba (E. Hess e V. Gabriel), Cupids (S. Valdez e B. Whitney), Live for tomorrow (B. Rodriguez) e Girl upstairs (B. Whitney e E. Gazas). Os arranjos são do Tom e do Claus Ogerman e os músicos são James Buffington e Ray Alonge (french horn), Candido Camero (bongo), Mel Davis e Bernie Glow (trumpetes), Phil Bodner (flauta, oboé, sax alto), Wally Kane (sax barítono), Tom Jobim (piano, violão, voz), Dom Um Romão (percussão), Bob Bushnell (baixo) e Gracinha Leporace (voz). O Tom canta duas faixas (Incerteza, com Gracinha Leporace, e Lamento) e, aparentemente, toca piano ou violão em todas as outras faixas.

Enfim, parece tratar-se mesmo de um CD inédito que, tecnicamente, deveria figurar na discografia principal, merecendo portanto sua atenção. As interpretações não são especialmente geniais, mas se enquadram no padrão de boa qualidade da época em que foram feitas e têm, sem dúvida, valor histórico.

Se você tiver interesse, posso mandar xerox da capa, da contra-capa e dos textos. Como não tenho scanner, a opção seria correio. Se você quiser os xerox, mande-me um endereço postal.

9.abril.97

Meu caro Luiz,

Estão seguindo, pelo correio, cópias xerox a cores da capa, da contra-capa e dos textos do CD "Estrada Branca", sobre o qual temos conversado. O CD, com gravação original de 1969, foi editado na França em 1995, o que me deixa meio perplexo, pois nunca o tinha visto à venda desde então e nunca tinha lido nada a seu respeito. O mais incrível é que você, um especialista no Tom, que examina tanta documentação e recebe tanta correspondência sobre a obra do nosso Maestro, tampouco tivesse informação sobre a existência do CD. Fico muito orgulhoso de ter-lhe dado a notícia, mas também inseguro sobre minha descoberta. Será algum tipo de falsificação?

Você teria meios de saber se os detentores dos direitos musicais do Tom sabem desse disco?

Enfim, espero que as cópias lhe cheguem rapidamente. Li recentemente (e sei por experiência própria) que a ECT anda meio devagar. Se minha carta não lhe chegar em prazo razoável (uns quinze dias, por aí), avise-me para que eu lhe mande outra. Estou ansioso por notícias suas.

Abraço amigo do

Antonino Mena Gonçalves
Bethesda, MD, USA

15.abril.97

Recebi hoje de meu amigo Erico San Juan, do Jornal de Piracicaba, o e-mail que transcrevo a seguir, e que joga sobre a questão do 'Disco Misterioso' uma luz talvez definitiva.

Luiz Roberto Oliveira

Caro Luiz,

Depois de tanto tempo, volto a lhe escrever e a lhe cumprimentar pela excelente home-page do nosso Tom. No entanto, gostaria de me pronunciar sobre o disco Estrada Branca, anunciado pelo amigo Antonino Mena Goncalves como sendo uma obra inédita de Antonio Carlos Jobim.

O jornalista Ruy Castro, em artigo publicado no jornal O ESTADO DE S. PAULO, afirma tratar-se de um disco pirata. Inclusive, dizia que os advogados de Ana Lontra Jobim, viuva do maestro, estavam na pista dos que colocaram no mercado a falsificação, para tomarem medidas legais contra os mesmos.

Se quiser, transcrevo o trecho do artigo em outro e-mail.Tenho o texto em casa, nao é dificil de achar. Esperando poder contribuir para o término do mal-entendido, subscrevo-me.

Um abraco,
Erico San Juan

16.abril.97

Um novo e-mail de Erico San Juan encerra de vez o mistério, e põe os pingos nos is:

Caro Luiz,

No meu e-mail anterior enganei-me numa palavrinha. Afirmei que o CD "Estrada Branca" é um disco "pirata". Nada disso, errei ao utilizar o termo. Na verdade, trata-se de um disco FALSO, sem participação de Tom! Se fosse pirata, os "tonzófilos" exultariam, pois teriam, de fato, uma gravação inédita do maestro, ainda que gravada e prensada de forma irregular.

Mas em se tratando de um disco falso, é vergonhoso. Pois bem, como prometi, aqui vai transcrição de trecho do artigo de Ruy Castro, com o título "TEM MAIS TOM JOBIM QUE A ENCOMENDA", publicado no O Estado de S. Paulo do dia 11 de julho de 1996. No artigo, Ruy recomenda quais os discos oficiais de Tom a serem comprados pelos fãs e demais interessados, alertando para não se enganarem pelas coletâneas. No último parágrafo, afirma: "Desonesto é o CD estrada Branca, lancado pelo selo francês Kardum, apresentado como um disco inédito de Tom, "gravado em 1969, em Nova York". Pois não é de Tom - e nem a voz que o imita é convincente. Mas já há quem esteja na pista do fantasma: os advogados de Ana Lontra Jobim, viúva do compositor."

Esperando ter encerrado de vez este mal-entendido, despeço-me. Um grande abraço, Luiz!

Erico San Juan

É, mas a novela ainda não acabou. Vejam o que nos escreve o Antonio Ortiz, da Espanha. Parece que a pirataria está se ramificando.

Luiz Roberto Oliveira

18.abril.97

Oi outra vez, Luiz:

Si, o disco «Estrada Branca» de Tom é um engano. Existe em Espanha uma versão do mesmo disco chamada «Amor de Samba». As música e os arranjos de «Estrada Branca» são muito ruins e 2 canções são do album "Jazz Samba Encore" de Stan Getz e Luiz Bonfá (Ebony Samba e Tribute to Getz). Tom é qualidade e boa musica, não essa gravação pirata!

Melhor não esquecer "O Disco Misterioso", para que os fans de Tom fiquem sabendo do engano que é "Estrada Branca".

22.abril.97

Muito bem. Mais comentários... O disco "Amor de Samba", nome espanhol de "Estrada Branca", foi editado pela casa espanhola Divucsa. Existe uma edição pirata de "Chico em Cy" (songbook de canções do teu amigo Chico Buarque) do Quarteto em Cy chamada "Chico Sambas". Também da casa Divucsa.

Antonio Ortiz (Sant Cugat del Valles, Espanha)

16.junho.97

Nosso querido Antonio Ortiz volta à carga:

Oi de novo, Luiz:

Outro novo descobrimento:

O tema "INCERTEZA" (Jobim-De Moraes) do CD falso "ESTRADA BRANCA" do Tom é em realidade o tema "SILENCIO DO AMOR" do album "LUIZ BONFA PLAYS AND SINGS BOSSA NOVA" do violonista LUIZ BONFA. Pode ser que em "Estrada Branca" existan outros temas de esse album de Luiz Bonfa.

Informaçao:
http://siteworks.com/szabo/ls_others.htm
(colaboracoes do pianista argentino do jazz Lalo Schifrin).

Ate logo,

Antonio Ortiz Carrasco
Sant Cugat del Valles (Barcelona, Espanha)

Entra em cena nosso novo amigo Lorenzo Arocas, também da Espanha. Ele nos confirma a pirataria, fala de Claus Ogerman, Tom e Bill Evans (para quem Claus também fez excelentes arranjos).

Luiz Roberto Oliveira

23.agosto.97

Tuve la ocasion hace unos dias de mandaros un mail de apoyo a vuestra pagina y ahora que he navegado por la misma y he examinado sus contenidos, de los cuales sin duda alguna resaltan las brillantes entrevistas que habeis efectuado, me gustaria hacer un comentario sobre el supuesto disco misterioso.

Como bien afirma mi compatriota Antonio, ese disco fue editado en España por Divucsa en 1994 como "Amor de Samba" y vendido a precio de saldo como ocurre con la casi totalidad de los titulos distribuidos por Divucsa que por lo demas, nunca facilita en sus CD´s, referencias ni datos sobre las grabaciones.
Yo lo adquirí en 1995 y desde la primera audición, tuve la abosluta seguridad de que Tom no estaba ahi. No estaba ni componiendo, ni interpretando. El mal gusto de la casi totalidad de las composiciones y arreglos, vulgares y simples, reflejan la obra de musicos menores. Los arreglos en ningun caso puede ser de Claus Ogerman al que bien conocemos por los arreglos de otros albums de Tom, Bill Evans o a su propio nombre. Son siempre notables. Yo estoy seguro de haber oido alguna de las piezas del album en algunos LP´s que se publicaron sobre musica brasileña en España a principios de los años 80 y probablemente tiene razon Antonio Ortiz al decir que algunas de las composiciones son de un album de Bonfa.
Me parece especialmente curiosa la escasa calidad tecnica de la grabacion. Otros albums de la misma epoca en la que supuestamente fue grabado, tienen una calidad muy superior.

Lo que creo que esta claro es que las piezas del CD, no pertenecen todas al mismo album original, ni probablemente al mismo musico. Lo que si es seguro es que Tom no tuvo nada que ver en el engendro que a ratos resulta hasta ridiculo. Hasta los nombre de las composiciones parecen inventadas por el editor que a lo mejor ni siquiera posee datos del album. Nombres como "Samba de amor" y "cupids" me parecen realmente sospechosos.

No os aburro mas con mis reflexiones. Si teneis un rato me contestais. Abrazos.

Lorenzo Orriols Arocas
Valencia, España



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