Tom Jobim e seus maestros
por Luiz Roberto Oliveira

publicado na Folha de S. Paulo, caderno Ilustrada, em 9.dezembro.2002

 

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As apresentações da Orquestra Sinfônica do Estado de S. Paulo e artistas convidados, com o tema "Jobim Sinfônico", mostrarão ao público uma face menos conhecida de Antonio Carlos Jobim: peças e arranjos orquestrais, criados para teatro, cinema, eventos, ou gravados em discos seus e de outros intérpretes.

O interesse por orquestração manifestou-se em Tom Jobim ainda em início de carreira: teve aulas com o maestro Alceu Bocchino, e também aprendeu muito com Radamés Gnattali, indiscutivelmente um de seus ídolos, e Leo Peracchi, que mais tarde colaboraria com Tom em poucas mas importantes ocasiões.

Seu talento era mais que suficiente para uma brilhante carreira de arranjador, se ele assim o quisesse. Mas encantou-se mesmo pela composição, e deve ter entendido logo que o futuro lhe sorriria muito mais pelas músicas do que pelos arranjos. Jovem e recém-casado, a necessidade de ganhar "o dinheiro para o aluguel" levou-o a criar arranjos orquestrais para vários intérpretes. Quase sempre o crédito nas contracapas para o arranjador e os músicos que participavam das gravações era formulado de acordo com a praxe da época: "Antonio Carlos Jobim e sua orquestra". Era uma força de expressão. Embora houvesse ótimas orquestras de corpo estável, como a famosa Tabajara de Severino Araújo, muitos grupos de instrumentistas arregimentados para gravações ou performances eram tratados pelo nome genérico de "sua orquestra".

A estréia de Tom no pódio de uma orquestra de grande porte deu-se em 1954, na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, com a apresentação de "Lenda", estudo sinfônico que compôs em homenagem ao pai.

Na primeira parceria com Vinicius de Moraes, Tom novamente adotou o estilo sinfônico em trechos criados para a peça de teatro "Orfeu da Conceição", de 1956. Na semana de estréia, Tom preferiu esconder-se atrás do piano, confiando a regência de suas orquestrações à batuta mais experiente de Leo Peracchi. Pouco depois, para a gravação do LP, animou-se e conduziu a orquestra. O programa "Jobim Sinfônico" inclui "Overture", as inéditas "Macumba" e "Dama Negra", e Milton Nascimento em "Se todos fossem iguais a você".

Tom Jobim fazia orquestrações e arranjos por necessidade de ofício, embora bem cedo tenha manifestado a tendência confiar a outros esta árdua tarefa. Ainda assim, foi o presidente Juscelino Kubitschek o responsável por fazer Tom queimar novamente as pestanas sobre as pautas musicais. E desta vez o assunto era dos mais sérios. A encomenda de "Brasília, Sinfonia da Alvorada" tinha prazo de entrega: a inauguração da nova capital, em 1960. A textura da orquestração, densa, solene, épica, alia-se aos versos de Vinicius para descrever a paisagem de um cerrado onde o homem é o elemento primordial na construção da cidade. Os quatro primeiros movimentos da obra serão executados pela Osesp.

Desejoso de mostrar suas músicas para os Estados Unidos e o mundo, Tom Jobim teve sua estréia no mercado norte-americano, em disco somente seu, com o vinil "The composer of Desafinado plays", em 1963. Por indicação do produtor Creed Taylor, conheceu o maestro alemão Claus Ogerman. As reservas que Tom tinha com relação a um possível "temperamento prussiano" do arranjador caíram por terra nos primeiros encontros de trabalho. O resultado foi um disco primoroso—o primeiro de uma parceria que Tom fez questão de repetir em outras ocasiões.

Movido por grande admiração pelo arranjador Nelson Riddle, não hesitou em convidá-lo para seu disco seguinte, "The wonderful world of Antonio Carlos Jobim". Riddle era um craque das big bands, mas passava por uma fase difícil de sua vida, com o filho doente, o que possivelmente contribuiu para que os arranjos não mostrassem o brilho esperado. Tom também ressentiu-se um pouco com um sotaque mais jazzístico dos músicos californianos convocados por Riddle para a gravação em Los Angeles. Faz parte do programa da Osesp "A felicidade", com arranjo de Riddle e voz de Maucha Adnet.

Em 1973, Tom gravou o vinil "Matita Perê", novamente com o apoio de Ogerman, que, sem dúvida, passou a ser o arranjador preferido de Tom. Além de absorver o estilo, o senso de economia de notas, e a brasilidade do compositor, falou mais alto sua competência na escrita, o talento no equilíbrio dos timbres, e a capacidade de obter dos músicos performances irretocáveis. A Osesp acompanhará Milton Nascimento na faixa-título.

Dori Caymmi também marcou presença com o arranjo de "Bangzália", para a minissérie de TV "O tempo e o vento", de 1985. A partitura, perdida, foi reescrita num exaustivo trabalho do violonista e arranjador Mario Adnet, tendo apenas a gravação como referência auditiva. "Bangzália" faz parte do programa da Osesp.

Paulo Jobim, filho de Tom, foi colaborador constante do pai durante a maior parte de sua carreira. Trabalhou em vários arranjos para discos e shows, frequentemente em dupla com o violoncelista Jaques Morelenbaum. Do último CD de Tom, "Antonio Brasileiro", de 1994, a Osesp apresentará o choro "Meu amigo Radamés". Esta faixa teve orquestração de Paulo, com uso de flauta, clarinete, piano, violão, e um naipe de cordas. Uma contribuição de última hora veio de ninguém menos que o próprio Tom Jobim, que, por sugestão do filho, criou a frase tocada pelos violinos no encerramento da música. Foi esta a última vez em que Tom mostrou seu talento de arranjador.

Nesta profusão de partituras, pautas, compassos e notas, não nos enganemos: embora gostasse de ouvir seus colaboradores, o conceito e as idéias dos arranjos que Tom encomendava a outros maestros vinham, na maior parte, dele mesmo. As harmonias, as linhas do baixo, os contracantos, a estrutura do arranjo—Tom entregava de mão beijada. Um exemplo é "Saudade do Brasil", que a Osesp interpretará em arranjo assinado por Claus Ogerman. Tudo vem de Tom, no médio, no grave, no agudo. Com Ogerman fica principalmente o valioso mérito de transcrever as partes para os instrumentos corretos, conseguindo perfeita combinação de timbres, com colorido e dinâmica adequados. Não é pouco, ainda mais se somado à regência irrepreensível. Alguns admiradores mais exaltados chegam a dizer que, para Tom, Ogerman foi um copista de elite. Injustiça. O fato é que a dupla Tom e Ogerman deu certo. Poucos arranjadores entenderam tão bem um compositor.

Na Sala S. Paulo, A Osesp se apresentará sob a regência de Roberto Minczuk, que se confessa um fã de Tom desde longa data: "Quem não admira Tom Jobim?". Embora atue na área da música erudita, o maestro sente-se à vontade para trabalhar com os ritmos brasileiros de algumas peças do programa, por já ter participado de grupos de música popular, aqui e nos Estados Unidos. Ao estudar as orquestrações de Tom, nota que a escrita do compositor era muito relacionada com o fato dele ser pianista, e de usar o instrumento ao elaborar as partituras. "Vê-se que há trechos escritos para a orquestra que se originaram em acordes tocados no piano; às vezes, as flautas fazem um acorde da mão direita, ou os violoncelos reproduzem a mão esquerda. Esta característica pode ser notada também em Beethoven e outros compositores".

A Osesp, pela competência e qualidade, confere nova dimensão às obras orquestrais de Tom. O projeto "Jobim Sinfônico" une o maior compositor de nossa música popular à melhor orquestra brasileira da atualidade. Os dois dias de concerto serão marcados por uma dupla comemoração: Tom pertencerá à Osesp; e nada mais justo que resgatar a antiga forma usada pelas gravadoras para dar crédito aos músicos, conferindo-lhe novo e mais amplo significado: agora sim, vamos ouvir Antonio Carlos Jobim e sua orquestra.

 
  Luiz Roberto Oliveira é músico, diretor da produtora Norte Magnético, curador do site oficial de Tom Jobim (www.tomjobim.com.br), e diretor do Clube do Tom (www.clubedotom.com), site em homenagem ao compositor.

 


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