A Tribuna de Santos

entrevista

Luiz Roberto Oliveira

 

 

Rogério Godinho, repórter do diário A Tribuna de Santos, no estado de S. Paulo, nos procurou para uma entrevista sobre bossa-nova e sobre o Clube do Tom.

O bate-bola rolou por e-mail, e vai aqui publicado na íntegra.

 

15.setembro.1997



A Tribuna de Santos:
1 - De que forma você entrou em contato com o grupo bossanova?

Luiz Roberto Oliveira: Não sou bom em datas, mas acredito que foi em 1955, quando eu estava entre os 15 e 16 anos, morava no Rio, e fazia o curso científico no Colegio Mello e Souza, em Copacabana.

Minha irmã mais velha gostava de música desde criança, tocava violão e estudava canto. Nesta época ela estava começando a dar aulas de violão, e talvez tenha visto em mim a cobaia ideal. Insistiu para que eu aprendesse violão com ela, eu não queria, porque achava que violão era instrumento de mulher, e não ficava bem um homem tocando violão.

Mas ela tanto insistiu, que eu, meio a contragosto, resolvi ter as primeiras aulas. Aprendi alguns acordes e algumas músicas bem fáceis, como a “Andorinha Preta” de Breno Ferreira. Comecei a gostar de tocar violão, e aprendia rápido. Nesta época, minha irmã começou a tomar aulas com um novo professor, que ela estava achando ótimo. Minhas reservas quanto ao sexo do violão caíram por terra, e ela ficava surpresa ao me ver fazendo tantos progressos.

Um dia, ela me disse: “Luiz Roberto, sabe de uma coisa? Você já aprendeu quase todas as músicas e acordes que eu sei (bondade dela...), e eu acho que você deve estudar com o meu professor. Pode deixar que eu falo com ele, e arrumo um horário para você.”

Mais ou menos ao mesmo tempo, um outro amigo resolveu me apresentar a um tal de Menescal, que tocava um violão “moderno”. E quando a Ana Maria, uma menina que queria me namorar, deu uma festinha em sua casa na Rua Redentor, em Ipanema, esse tal amigo convidou o Menescal. Aquilo foi um choque, uma avalanche para mim. O Menescal, de pé, com o violão preso ao pescoço por uma cordinha, tocou a primeira música: “Moonglow”, o tema do filme. Eu fiquei boquiaberto. Nunca tinha visto aqueles acordes, nem aquele jeito de tocar macio, sem fazer barulho, elegante, cheio de uma coisa que eu mais tarde conheceria pelo nome de “swing”.

O Menescal tocou também o samba-canção “Menina”, cujo autor eu iria conhecer em breve. Logo no começo da música, um acorde incrível, que eu nos dias seguintes passaria horas e horas tocando - só aquele acorde.

Foi assim que, um belo dia, tomei um ônibus para Copacabana, fui ao endereço que minha irmã havia me dado, e um tal de Carlinhos, um garoto com um daqueles topetes que mais pareciam um projeto de Oscar Niemeyer, me abriu a porta. Entusiasmei-me instantaneamente pelas aulas com o Carlos Lyra. As músicas me fascinavam, e ele mesmo já tinha algumas composições. Foi ele que fez o samba-canção “Menina”, que estava se tornando uma espécie de sucesso do pedaço. Eram duas letras machistas, o “Menina” e outra anterior, “Quando chegares aqui”. Mas as melodias e os acordes eram demais, eu nunca tinha visto aquilo. Tudo era samba-canção ou samba batucada - não me lembro neste tempo de nenhuma batida de samba mais moderna.

E havia uma diferença curiosa: até então, todo mundo tocava violão com cordas de aço. O Carlos Lyra é que começou a dizer que as cordas tinham que ser de nylon, que o som ficava melhor, menos estridente, e tal. Me lembro que no início eu estranhei muito o nylon. Aquilo tocava baixinho, não saía som.


Um dia, quando eu cheguei para a aula, o Carlinhos, alvoroçado, me disse que a Silvinha Telles tinha gravado o “Menina”. Era um 78 rotações, uma música de um lado, outra do outro. Assim que pude, comprei o disco. (E no outro lado do disco? Outro samba-canção, “Foi a Noite”, feito por uma dupla de ilustres desconhecidos: Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça).

O Carlos Lyra falava muito no Garoto, um violonista que ele conhecia, e que tocava um violão diferente, umas músicas mais complicadas. E falava também do Johnny Alf, um pianista que tinha se mudado para S. Paulo. O Johnny tocava um samba diferente, especial, moderno...

E isso tudo ficava girando na minha imaginação, porque do Garoto eu só tinha ouvido o samba-canção “Duas Contas”, e do Johnny Alf, nada. Um dia o Carlinhos me mostrou o “Rapaz de Bem”, do Johnny. Eu achei meio estranho, meio complicado. Mas foi justamente esta complexidade harmônica e melódica que me fez gostar desse samba.

O Menescal e o Carlinhos começavam a falar com mais frequencia em um novo jeito de tocar samba, uma nova batida. Mas isto ainda não estava muito definido. Um dia, o Menescal apareceu todo contente com uma nova batida, que ele aliás usou durante muito tempo, e que nada mais era que uma batida de marcha-rancho, tocada dentro de uma estrutura de samba. Se eu não me engano, o Carlinhos até achava um pouco de graça naquela batida: “O Menescal toca marcha-rancho e pensa que é samba...”.

Mas o Carlinhos também começou a mudar o jeito de tocar. E eles tinham uns amigos que também tocavam, e me falavam desses amigos, “o Candinho é demais...”, e tal. Um dia, durante uma aula com o Carlos Lyra, a campainha tocou e entrou um sujeito todo alegre, muito simpático, falando muito, e contando ao Carlinhos, empolgado, que iria gravar neste dia numa faixa de um LP da Maysa. A música era o “Ouça”, e ele mostrou no violão o que iria fazer na gravação. Quem não gostou daquilo fui eu, o tal sujeito estava atrapalhando minha aula, eu queria aprender mais acordes, mais músicas, e ele ali, monopolizando o Carlinhos e o meu horário. E o Carlinhos também esqueceu de suas obrigações de professor, os dois naquele papo animado, e eu ali assistindo aquilo, sem jeito de reclamar. A horas tantas, o tal sujeito, num terno preto com gravata escura, disse ao Carlinhos que precisava ir, levantou-se, nos cumprimentou, e partiu.

O Carlinhos então virou-se para mim (meu horário de aula já tinha acabado) e disse: “Olha Luiz, você fica de olho nesse cara, esse baiano toca um violão diferente e ainda vai dar o que falar. O nome dele é João Gilberto”.


2 - Você participou de que forma da revolução causada pela música do banquinho e violão?

Eu era mais o espectador maravilhado. Ainda sabia muito pouco violão, e tinha pouca experiência de música para compor. Até que fazia algumas canções, que não passavam ainda de exercícios de aprendiz.

Frequentava alguns amigos sempre que podia. O Menescal e o Carlinhos eram os que eu mais via. Eles de vez em quando iam na minha casa tocar naquelas festinhas, todo mundo sentado no chão e cantando baixinho. Muitas vezes o Menescal ia lá de tarde, depois do colégio, e nós dois ficávamos tocando. Conheci muita gente. A Silvinha Telles, o Candinho, a Astrud, o Luiz Carlos Vinhas. O Menescal me levou à casa da Nara. E me levou também para conhecer os irmãos Castro Neves. O Mário, um pianista incrível, o Iko no baixo, o Pepê cantando, e o Oscar na guitarra. Depois, fiquei amigo do Oscar.

Eu via aquelas músicas todas aparecerem, inclusive a pouco conhecida “Mamadeira Atonal”, que começava mais ou menos assim:

"Perguntem pro Papai por que eu nasci moderno assim
Perguntem pra Mamãe se dissonante mora em mim..."

 

3 - Na sua opinião, quem forma o grupo central da bossa?

João Gilberto, Roberto Menescal e Carlos Lyra. Para mim este é o trio mais importante. Houve precursores, tais como Mario Reis, Dick Farney, Lucio Alves, e Johnny Alf. Walter Santos, que mora em S. Paulo, era amigo de João e já tocava com a mesma batida.

Coincidiu que por sobre a bossa-nova passasse em vôo baixo e majestoso a estrela fulgurante de Tom Jobim, que iluminava tudo ao redor, e que sempre esteve muito além e acima das bossas desta terra. Nesse tempo ainda não era visto em sua forma final de urubu-caçador. Tom Jobim Over the Rainbow.

Não, não diria que Tom é bossa-nova. Tom passou pela bossa-nova, que deve a ele e a João a força de que precisava para viajar o mundo.

Assim como também não concordo quando dizem que “Chega de Saudade” é a música mais importante da bossa-nova, a mais marcante. E’ claro que foi em duas gravações de Elizete Cardoso no LP “Canção do Amor Demais” que se ouviu pela primeira vez em disco a batida do violão de João Gilberto: “Chega de Saudade” e “OutraVez”. Mas o “Chega de Saudade” tem estrutura de choro, e provavelmente já havia sido composta há algum tempo. Mas a bossa-nova era também uma postura, uma atitude que teve seu melhor retrato na música “O Barquinho” de Menescal e Bôscoli. Esta sim, o marco, o arco e o barco da bossa-nova.

Não posso deixar de falar da enormidade de quem deu seu carinho e sua força para todos, de quem fez tantas letras inesquecíveis para tantos parceiros (inclusive para mim). Foi Vinicius de Moraes quem projetou o nome de Tom Jobim, quem acreditou nele para juntos fazerem o Orfeu, o começo da maior parceria da música brasileira.


4 - Segundo Carlos Lyra, a expressão 'bossanova' surgiu em 57 e o ritmo está fazendo quatro décadas. Como você o avalia atualmente?

Hoje, eu vejo a bossa-nova como um estilo musical com conteúdo muito rico e muito completo, porque nela se renovaram melodia, harmonia e ritmo. A bossa-nova era também uma atitude, uma maneira mais leve e saudável de ver a vida, com mais luz, sol, e mar. Nunca foi um estilo das massas, mas sempre andou pela classe média. Seus criadores eram pessoas da classe média, com cultura de classe média, e falando para a classe média. E todo mundo morando perto da praia.

Musicalmente, a contribuição foi revolucionária. João Gilberto mostrou ao mundo um novo jeito de tocar e cantar, e influenciou a música de muitos países. E os japoneses e os alemães, que nunca tiveram uma música popular decente, são até hoje vidrados na bossa-nova.

 

5 - Ele persiste na música popular ou é passado?

A bossa-nova teve seu tempo. Hoje, só é praticada no Brasil como lembrança de uma época. Não vejo mais sentido em se compor uma bossa-nova hoje. Acredito que atualmente a bossa-nova tenha mais prestígio no exterior do que no Brasil. Agora, ela não deve ser esquecida, assim como o choro e o frevo também não. O Brasil anda muito imediatista, e não dá valor à sua história.


6 - O que o levou a construir um site na Internet, meio de comunicação moderno, para uma música com pouca receptividade entre os mais jovens?

O site que eu e o publicitário Sérgio Lima mantemos na Internet, o Clube do Tom, não é um site sobre a bossa-nova, mas sobre Tom Jobim. E’ diferente. Eu decidi fazer o site primeiramente movido pelo amor à obra de Tom; e depois pela vontade de dar minha pequena contribuição para a memória nacional. O Brasil não lembra de mais nada, não tem apreço pela sua cultura nem pela sua história. Pergunte a um jovem de hoje quem é Dorival Caymmi, ele é capaz de não saber.

Eu penso que é mais para os jovens que este site é dirigido. Para ajudá-los a lembrar que Antonio Carlos Jobim passou por este planeta.

 

7 - Como tem sido a aceitação do Clube do Tom?

Considerando a pouca divulgação que temos podido fazer, o site está indo muito bem, e está sendo muito bem aceito. Para verificar isto, entre no Clube do Tom e visite a seção “Correios e Telégraphos”, que coleciona os e-mails que o Clube do Tom recebe diariamente do mundo inteiro.


8 - Que integrantes de relevância da bossa tem contato com a home page?

Temos recebido e-mails e apoio de muitos músicos. Em primeiro lugar quero citar a enorme ajuda de Paulo Jobim, filho de Tom, sem a qual seções importantes deste site não estariam publicadas. Agradeço também a Ana Jobim por autorizar o uso da imagem e da obra de Tom Jobim no site. Os entrevistados nunca negaram fogo, e tenho certeza de termos relatos que contam muito sobre Tom, muitas vezes mostrando facetas pouco conhecidas do maestro. Recebemos muitos e-mails de músicos de estilos bem diversos, desde o maestro Edson Frederico, passando por Jards Macalé, até John McLaughlin.

Fico especialmente satisfeito por constatar que grande parte da correspondência que recebemos vem de jovens entre 15 e 20 anos.



Home Page em português

Colaborações

Volta ao topo da página