entrevistado por
Luiz Roberto Oliveira



CAPÍTULO III




A minha Universidade

LR - Carlinhos, o que é o Tom para você?
CL - O Tom, para mim, é a minha Universidade, aquela coisa que a gente estudou música, mas os melhores cursos de música que eu fiz na vida foi ouvir o que o Tom tocava e as coisas que ele falava, os arranjos que ele fazia pras minhas coisas. Inclusive, ele ia fazer os arranjos para um disco da Pobre Menina Rica, e na época eu também morava na Barão da Torre, a dois quarteirões de distância da casa dele, então, volta e meia, eu passava lá na casa dele, sentava lá, a gente ficava conversando, tocando violão, trocando músicas, ele fazendo harmonia pras músicas, mostrando as coisas novas que ele tinha feito.
LR - Isso foi depois daquela época em que eu tive aula com você?
CL - Foi bem depois, eu já não dava mais aula de violão, eu já tinha gravado disco, ele já tinha gravado coisas para o João Gilberto. Eu ia na casa dele, ele ia na minha casa, a gente se frequentava muito, até a época do "Carnegie Hall" , até 1962. Até a época em que as pessoas começaram a viajar e a sumir do Brasil. Nós saíamos juntos, íamos ao cinema, fomos ver "Deus e o Diabo na Terra do Sol". Você se lembra do filme?
LR - Lógico!
CL - Então, e tinha no filme aquele crioulo grande que chamava os caras, que levava todo mundo e eu me lembro do Tom dizendo assim: "Ih, rapaz, olha lá o Moacir Santos !" (risadas). O Tom era muito engraçado, era de uma irreverência incrível.

CL - Então, a gente se encontrava, ficava trocando idéia de harmonia, e fazendo harmonia para "Primavera" e ele mostrava "... eu amei..., porque o Sérgio Mendes é quente pra frente, então toda a harmonia é quinta diminuta com sétima, tudo Ué, Ué... e fica ...eu amei ué, ué..." e a gente, morrendo de rir, colocando quinta diminuta com sétima, em toda a harmonia do "Amor em Paz." A gente se divertia muito, brincando com música, fazendo piada com as harmonias.

Carlinhos Lyra toca um trecho de "Primavera", lembrando as brincadeiras com os acordes. (risadas)
CL - O capricorniano tem muito de senso de humor, por isso é que o Tom era muito engraçado.

LR - Que arranjos ele fez para músicas suas ?
CL - Ele fez "Coisa Mais Linda" para o João Gilberto, fez "Maria Ninguém", fez "Lobo Bobo", "Se é Tarde me Perdoa", "Você e Eu", tudo isso foi arranjo que ele fez para o João Gilberto, fora os que ele fazia na (gravadora) Odeon para outros cantores.
E a "Pobre Menina Rica" nós sentamos para trabalhar juntos nos arranjos, que ele acabou não fazendo. Quem fez foi o Radamés (Gnatalli).


Influência do Tom


LR - Na sua música, você teve alguma influência do Tom?
CL - Evidente que sim.
LR - Você tem alguma coisa localizada pra dizer: "Olha, o Tom baixou aqui !" ?
CL - Claro, mas ele é quem era mais observador dessas coisas e dizia: "Olha, isso aqui é influência sua." Quando ele fez "Surfboard" (Carlos toca um trecho) ele disse para o (Roberto) Menescal: "Eu fiz a sua música, eu fiz o "Surfboard", a sua música."
LR - Mas essa é bem no jeito do Menescal, mesmo.
CL - Comigo também aconteceu, porque ele adorava "Você e Eu", e um dia ele me mostrou não sei bem qual música, acho que era "Discussão" e depois disse: "Isso é influência do Carlinhos Lyra, tudo isso eu tirei de "Você e Eu".
LR - E você vê semelhança entre as duas músicas ?
CL - Eu não, eu não consigo ver.
LR - Eu também não.

(Carlos Lyra toca trechos das duas músicas.)

LR - E há influência dele em músicas suas ?
CL -Tem coisas que eu tenho dele, que ele mexeu. Por exemplo, na "Pobre Menina Rica", nós fizemos tudo junto. E uma vez, nós estávamos comentando, que na Idade Média, aqueles caras diziam que a quinta diminuta era o intervalo do diabo, proibido de ser usado nas músicas. E quando nós fomos fazer o arranjo do "Carioca", o Tom disse: "Olha, vamos fazer o arranjo do "Carioca", mas eu vou colocar o intervalo do diabo aqui." (Carlos toca um trecho do Samba do Carioca)
"E aí, nós vamos ser os dois excomungados."

E ele também fez uma introdução para "Maria Moita", que eu mantive para sempre, herdei dele. E teve também uma volta, quando eu sugeri que ele mudasse uma nota em "O morro não tem vez". A frase melódica dele era mais para o blues, e ele acabou adotando a que eu mostrei, e ele disse: "Esta é mais popular, é mais o morro, já não é aquela coisa de morro dos Estados Unidos, um negócio de Beverly Hills, esse morro é mais carioca." E a gente trocava figurinha assim, o tempo todo, que era uma coisa muito gostosa.


A direita festiva


LR - Gozado, Carlinhos, é que essa letra de "O morro" que o Vinicius fez, não tem nada a ver com o Tom, que não era de morro nada !
CL - Pois é, mas o Tom Jobim mesmo dizia: "Eu sou da direita festiva". O cara que era o comuna era o Vinicius, que fez o Hino da UNE comigo, que era o cara do "Operário em construção", que foi integralista feito o meu pai, nos anos 30 e 40 e depois virou comuna.
LR - O que será que o Tom achou dessa letra, na época?
CL - Não estava nem achando, a letra estava do cacete e fica a letra, podia ser de direita ou de esquerda, que ele não estava nem aí. Eu só acho que ele não gostava muito daquele negócio de panfleto ridículo. Eu também não, apesar de ser comuna até hoje, eu não seguro panfleto, eu odeio panfleto, tenho pavor de panfleto e ele tinha também, porque ele era artista e artista não aceita panfleto, não tem jeito, mas uma coisa que tivesse um cunho social bonito, bem feito... Quantas vezes ele foi levado para o lado da esquerda, da consciência social, pelas mãos do Vinicius. Já quem levou o Vinicius pra UNE fui eu. (risadas)


No próximo capítulo:
Carlos encontra Tom
nos Estados Unidos


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