entrevistado por
Luiz Roberto Oliveira

fotos: Eduardo Pires Ferreira


CAPÍTULO I









Um violão chamado Vinicius


Luiz Roberto Oliveira: Chico, quantos anos você tem ?
Chico Buarque: Cinquenta e dois.
LR: Qual foi a primeira vez em que você ouviu falar do Tom, ou ouviu alguma música dele ?
CB: Foi num disco em 78 rotações, talvez o primeiro disco que eu comprei, para dar para minha irmã. Eu gostava da música: Teresa da Praia.
LR: Qual irmã?
CB: A Miucha.
LR: Que naquele tempo tinha o apelido de Bubu (risos). Aí você deu a ela Teresa da Praia.
CB: Com Dick Farney e Lúcio Alves cantando. Mas eu me ligava na música e talvez não soubesse ainda quem era Tom Jobim. Não sabia quem era o compositor, nem que a letra era do Billy Blanco. Não lembro desta época do nome de Tom Jobim.

Quem eu conhecia já algum tempo era o Vinicius, amigo do meu pai, Sérgio Buarque de Holanda, historiador e crítico literário. Ambos pertenciam ao mundo da literatura.
LR: Você conhecia o Vinicius desde criança?
CB: Desde criança. Durante dois anos, entre 52 e 54, minha família morou em Roma. Meu pai foi dar aulas na universidade de Roma e nesta época o Vinicius era consul em Roma. Morando em São Paulo, a gente não via o Vinicius, mas em Roma, ele como consul volta e meia aparecia lá em casa.
LR: Quantos anos você tinha nesse tempo?
CB: Fui com oito anos e voltei com dez. E quando Vinicius aparecia era uma festa lá em casa, festa para a qual nós crianças não eramos convidados, é claro, ficávamos assim de longe, ouvindo.
LR: E você já tinha interesse naquela época, já se ligava no Vinicius, quem era aquele cara e tal?
CB: Muito, muito. Tinha fascínio por ele, tinha fascínio porque eu era criança e via a Miucha, minha irmã mais velha , que tinha um violão que se chamava Vinicius. E através também dos meus pais que gostavam muito dele. O meu pai era fascinado pelo Vinicius. Vinicius tinha esse poder de fascinar as pessoas que, no bom sentido, tinham um pouco de inveja da maneira como ele levava a vida. O meu pai de certa forma gostaria de ser como ele. Drummond disse uma vez que o Vinicius era o grande poeta que vivia a própria poesia. Um poeta em vida. E meu pai também volta e meia contava histórias do Vinicius. Por que o Vinicius era um mito. O Vinicius tocava no violão da Miucha aquelas canções dele em parceria com Antonio Maria, outras dele mesmo, aquela "Cem por cento", "Quando tu passas por mim". Quando começou a parceria de Vinicius e Tom, pra mim o Tom não era ninguém, era parceiro de Vinicius.
Eu lembro bastante do LP que tocou muito lá em casa, a Elizete Cardoso em "Canção do amor demais".

LR: Em que época você morou em São Paulo?
CB: Eu fui com dois anos de idade para São Paulo, e morei lá até os vinte e dois. Morei vinte anos em São Paulo, com esse intervalo no meio de dois anos em Roma.


A ruptura

CB: Então aí tem um ponto de ruptura, que foi quando realmente aconteceu a música na minha vida. Foi com "Chega de saudade", no compacto de João Gilberto.
O João tocou violão na música "Outra vez", no disco "Canção do amor demais", que já era uma coisa estranha pra mim, mas a estranheza mesmo veio com "Chega de saudade". E era uma estranheza geral, tanto é que houve uma ruptura mesmo de gerações, de pessoas que não gostavam daquilo, pessoas mais velhas que difìcilmente engoliram no primeiro momento a Bossa Nova, aí incluindo a música do Tom e a voz, o violão, e a maneira de cantar de João Gilberto.
LR: O que seu pai achava disso ?
CB: Meu pai resistiu um bocado, engraçado.
Na época eu tinha uns 14 anos e me pegou em cheio. E eu percebi que com todo mundo foi a mesma coisa. Na Bahia, com Gilberto Gil, Caetano Veloso. Quem ouviu, lembra de quando ouviu e em que circunstâncias... Eu me lembro: "Nossa, tem uma música do Vinicius tocando no rádio..." E eu pedi a meu pai um adiantamento da mesada, para comprar o disco. "Chega de saudade" foi o marco histórico da Bossa Nova.
LR: E as músicas anteriores, como Teresa da Praia, eram pré Bossa Nova. O Orfeu da Conceição era ainda no estilo do samba batucada.
CB: Tanto que tem uma gravação que pouca gente conhecia na época, que era o João cantando "Orfeu". Não sei se você lembra.
Era um compacto duplo de João Gilberto, que tinha aquele frevo de Orfeu que ele não cantava - era um coro. O João cantava "Manhã de Carnaval", "O Nosso Amor" e "A Felicidade", em que o refrão era a batucada (canta um pedaço), um corão assim popular, e aí entra o João já com a batida da bossa nova, coisa híbrida mas muito interessante, num disco que quase não apareceu.
Eu lembro de ter assistido o filme do Orfeu. Foi um grande sucesso e tal... e eu lembro da minha decepção quando ouvi o Agostinho dos Santos cantando no filme. Apesar dele ser um grande cantor, eu fiquei decepcionadíssimo porque eu já era um bossanovista radical, e o João Gilberto estava quilômetros à frente dele, e mesmo de Elizete Cardoso. Enfim: a história de meu conhecimento de Tom foi assim...


Tom ou João ?

LR: O Tom já no inicio já fascinou você? As músicas?...
CB: A partir daí eu comecei a descobrir que as músicas não eram do Vinicius, eram do Tom Jobim, e eu comecei a me ligar - e cada novo disco do João tinha um punhado de músicas do Tom. Mas o Tom mesmo, quer dizer ele cantando, ele gravando, foi mais tarde...


LR: Naquela época ele era tímido, profissionalmente muito retraído, não queria cantar nem nada, e ganhava a vida como pianista e arranjador. Mas neste começo o Tom já fascinava você ou era apenas um bom compositor - tão bom quanto outros, como Pixinguinha, como Noel Rosa?

Tom, Pixinguinha, João da Baiana e Chico
CB: Não. Ele pra mim desbancou todo mundo, porque eu conhecia bastante música brasileira, essa música dos anos 30, anos 40, porque lá em casa sempre houve muita música, meus pais cantavam muito Noel Rosa, tinha histórias de Ismael Silva, Ataulfo Alves. Chegou a Bossa Nova eu rompi com esse passado todo. Houve um tempo em que eu não podia nem ouvir falar. A não ser que fosse alguma coisa recriada por João Gilberto, por exemplo, João cantando Ari Barroso. Pra mim foi assim... mudou. Mais tarde eu recuperei inclusive essa formação toda, bastante forte, de música popular, música de carnaval - eu ouvia muito rádio na época de carnaval.
Quando chegava no meio do ano, gostava muito de bolero, de sambas, de marchinhas de carnaval, sabia de cor todas as músicas. Mas quando chegou Tom... Mas agora eu não sei te dizer na medida exata até onde era Tom e até onde era João Gilberto, porque a inovação também era João cantando.

No próximo capítulo:
Chico conta como se sente fazendo sua 
primeira letra para uma música de Tom.


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